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Realidades Imprecisas - SESC Pinheiros
Curadoria Carolina Soares
Rua Paes Leme, 195 Pinheiros - São Paulo SP
Nino Cais; Tatiana Ferraz; Thiago Honório...

Abertura: 19 de Fevereiro às 20h
Exposição de 20/02 a 19/04 2009

terça a sábado das 10:30hs às 20:30hs
domingos e feriados das 10hs às 18:30hs


Realidades Imprecisas

Entender que estão as palavras a cumprirem o papel de nomear as coisas do mundo significa inferir a realidade por intermédio de convenções simbólicas para com ela nos relacionarmos. Ainda que evoquem a idéia de sucedâneas do real, as palavras levam a um conhecer que se faz de modo representacional. Ou seja, mesmo diante da naturalidade com que se dá o processo de aprendizagem (torna-se lugar-comum enfatizar que “árvore” - ao ser pronunciada - traz à mente, de modo quase simultâneo, a imagem do objeto ao qual faz referência), a natureza das coisas é tangenciada por mecanismos de re-apresentação do mundo.
Se é possível falar de um automatismo convencional pelas palavras, ele serve de ponto de distinção sobre a realidade do objeto de arte contemporânea cuja compreensão de suas relações internas se dá a partir de aproximações com outros âmbitos da experiência. O campo agora requisitado é o da re-significação das coisas. O enunciado pelas palavras é ampliado em seu caráter conotativo para abarcar outros sentidos. A precisão com que o universo lingüístico trabalha os signos é transmutada prevalecendo agora o seu oposto, a imprecisão.

O trabalho de Débora Bolsoni é exemplar nesse aspecto. Num caminhar pelas ruas de qualquer cidade é na pluralidade de objetos, cores e formas localizados pelo olhar, que a artista detém sua atenção. É a intimidade desse estar dentre as coisas do mundo que permite dessecar-las como se delas fosse possível retirar a natureza simbólica que as constitui. Torneiras por onde não sai água. Portas que não estão, de fato, empenhadas em divisar espaços ou protegê-los. Deles, permaneceria então apenas a configuração física característica do objeto, uma aparência revestida por um sentido agora, no entanto, já amorfo.

Em Desde lá, de Fabiana Queirolo, paredes, cantos, pisos, degraus formam linhas retas, ortogonais, perpendiculares. São superfícies que quando sobrepostas ganham em perspectiva. A realidade dos planos arquitetônicos é então transmutada criando ambigüidades geométricas. Três imagens de um mesmo lugar, mas com pequenas variações de pontos de vista são dispostas em camadas: uma ampliação digital sobre PVC, pintura sobre parede que dá continuidade a uma impressão em vinil adesivado e mais outra ampliação em acrílico. Essas realidades fragmentadas vão sendo coladas ao espaço que se transmuta em seu espelhamento.

No trabalho de Flamínio Jallageas faz-se o jogo entre o real e o virtual. Este último é explorado como faculdade de fazer as vezes de um outro, enquanto simulação. No interior de uma estrutura simples de acrílico, o artista posiciona - sobre dois espelhos um côncavo e outro convexo - um conjunto mobiliário de madeira em miniatura. Por meio de um orifício na superfície da caixa é então permitido ao espectador vislumbrar o resultado com a projeção tridimensional daquela imagem interna e supostamente real. O holograma criado não é apenas um espelhamento, é também confronto entre imagens que aponta para materialidades distintas. Mesmo partindo de uma mesma natureza objetual concreta, o que se produz é um espaço em suspenso tensionado por um entrelaçamento luminoso a refletir aparências virtuais.

No trabalho de Helena Martins a idéia de que a fotografia espelha a realidade torna-se hiperbólica em contundência. Ampliadas em grandes dimensões e em preto e branco, elas se impõem no espaço expositivo de modo singular. São imagens de pessoas sem rostos, sentadas em um banco com seus corpos e gestos congelados como em uma pausa para a observação de algo. E é esse o convite que a artista nos faz: pausar e observar. Desses atos surge, então, uma ironia quando, em bancos postos a frente das fotografias, sentamos e replicamos, de maneira quase automática, o mesmo posicionamento das pernas, dos braços e das mãos. Essa duplicidade nos faz crer na idéia de um condicionamento corporal em que a individualidade do gesto parece torna-se universal. Nesse espelhamento contraditório, não são mais necessários os rostos, pois as marcas identitárias deixam de fazer sentido pelas próprias convenções às quais submetemos nosso corpo.

As fotografias de Marcelo Amorim são um re-encontro de si consigo mesmo. Revirando as páginas dos antigos álbuns da família rever instantes já imemoráveis. Pela imagem fotográfica vem a constatação de um tempo que se esvaiu e que se perdeu. Fica a impossibilidade de serem restabelecidas, em sua integridade, as relações entre o sujeito retratado e a fotografia. O não reconhecimento das identidades dos sujeitos ali colecionados faz do álbum um lugar, por excelência, de ausências em que o sentido das imagens parece perder-se. Daí o significado de Missing, que, em português, remete à idéia de algo ou alguém “desaparecido”. É como num esforço de localizar em sua própria memória indivíduos, alguns já totalmente anônimos, que agora ganham autonomia para além do álbum.

Os dípticos fotográficos de Mariano Klautau Filho resultam na combinação de imagens quase oníricas que transitam entre realidade e ficção sem, no entanto, deixar claros os limites que as separam. Mesmo captadas pelo processo fotográfico em que é pressuposto a existência real do objeto, as imagens apresentadas por Klautau parecem imaginadas. Não nos é autorizado compreendê-las por meio da literalidade dos sentidos, eles são fugidios, provocam o observador a buscar outros entendimentos que permitam alcançar o movimento, as cores, as interfaces, as entrelinhas, as interrupções, os fragmentos. A realidade não se esgota em si. As formas, muitas delas incertas, insistem em narrativas outras que extrapolam as re-significações.

E se lhe fosse pedido para figurar a afetividade, qual forma ela teria? Na mais completa abstração de um sentir que se faz enquanto estado de alma, Nino Cais segue juntando singulares objetos, recortando de seu universo doméstico lembranças para, na sutileza de um fazer, materializar algo que cada um traz atado dentro de si, apenas. Nas colagens, os elementos se repetem. Intervindo em capas de revistas antigas, o artista recria um universo, íntimo, preenchido por afetos, que é só seu.

O desejo é um dos sentimentos humano atrelado a ausência de algo. É um impulso, consciente ou inconsciente, em busca de um satisfazer-se. Como uma aspiração do corpo ou da mente em suprir anseios que muitas vezes estão ocultos ou ao menos difíceis de serem rapidamente retidos pelos sentidos. O trabalho de Orlando Maneschy coloca o espectador diante das ambivalências do desejo, daquilo que existe, mas que não se deixa ver. As fotografias apresentam um espaço cujas referências são um globo de luz e uma porta com cortinas amarelas que não permitem revelar o interior ao qual dão acesso. Nesse lugar em suspenso, a ação do artista se faz ao correr o risco e divisar a demarcação da porta adentro. O movimento sensual e a cor das cortinas acetinadas seduzem, para, ao final, permanecer aquilo que é da natureza do próprio desejo: o mistério.

E quando a ilusão se faz em sua forma mais corrente de afastamento do real? Ou seja, sem uma recusa de percepção propriamente dita - sem negá-la, apenas deslocá-la - surge uma verdade aparentemente paradoxal em que o iludido vê, à sua maneira, tão claro quanto qualquer outro. O trabalho O engano é a sorte dos contentes, de Tatiana Blass, recoloca essa ironia do jogo da ilusão. O deixar-se enganar enquanto parte integrante do espetáculo. Também nas pinturas, o teatro que seria o lugar, por excelência, para encenações e ilusões ganha como personagem central a luz. A sua presença torna-se tão acentuada que chega a ganhar forma concreta, a se materializar pelo uso exacerbado de cores berrantes que transformam o palco em pura luminosidade a mimetizar a si mesma.

Texto andar superior

Do reconhecer-se no mundo resulta impressões individuais em que o sujeito passa a lidar, de modo singular, com a realidade para dela produzir desdobramentos. Nesse descobrir a si mesmo, experiências são acumuladas e transferidas à memória, ao desejo, ao afeto... E é a partir do contato com esse campo sensível que a arte contemporânea se faz. Diante dos trabalhos aqui sugeridos como Realidades Imprecisas o observador é requerido a todo instante como uma possibilidade repensar os próprios procedimentos e limites da arte.

O Amante. Com esse título o trabalho de Flávia Bertinato diz quase tudo. Cortinas vermelhas aveludadas, repletas de densidade ganham existência ao som romântico da música "Ad Ogni Costo" de Ennio Morricone. Nesse cenário, tudo seduz, mas, ao mesmo tempo, tudo está interdito. Ao se aproximar do volumoso cortinado, o observador surpreende-se com a impossibilidade de acesso ao interior de um espaço que existe apenas enquanto expectativa de um desejo que, no entanto, não se realiza. Essa frustração acaba por reduzir o sedutor adensamento das várias camadas de tecido vermelho a uma condição de mero objeto a ser vislumbrado, mas jamais desfrutado.

Em uma bacia de alumínio com água, Milena Travassos projeta uma imagem de si mesma. Da reunião desses elementos resulta a imaterialidade, o fugidio, a transparência, o reflexo. Tudo nos escapa. Mesmo a existência concreta da bacia dilui-se no convívio com elementos que se colocam fora do alcance das mãos. Se retirada, da bacia restaria apenas o utensílio doméstico sem mais encantos. Mas o que se vê é um conjunto que parece ocultar mistérios irreveláveis. A sensualidade da imagem projetada sob a água reverbera uma transparência que não se deixa por completo transparecer.

Em meio a uma natureza subtraída e re-configurada pela ação do Homem, surgem as cidades. Artificiais, elas refletem o desenho dos desígnios humanos. Precisos ou não, são neles que Tatiana Ferraz detém sua atenção. Seus trabalhos em marchetaria sintetizam formas abstraídas por um olhar atento aos planos urbanos. A série Observatórios, como o próprio título sugere, é exemplar enquanto metáfora dessa ação: um lugar de onde fosse possível observar a qualquer coisa é a proposta do trabalho em que a intervenção se faz pelo ato de olhar.

Atribuir o título Exposição a um trabalho de arte em exposição - seja numa galeria ou museu - parece tautológico. Mas é exatamente por meio desse ato que se faz uma reflexão possível sobre o processo de criação artística. Questionar sobre a natureza do objeto exposto torna-se um modo para se tentar compreender as sutilezas com que são constituídos os mecanismos de elaboração da própria arte. E para isto, Thiago Honório assume os riscos. Expõe a si mesmo. Ao descascar um pêssego e envolver partes de seu corpo com as “pétalas” do fruto, não impõe interditos definidos entre a ação que se realiza na intimidade e sua observação pública, interroga sobre o modo como os dois universos se tocam e sofrem constantes redefinições. Aflora desejos tácitos. Parece desvelar não simplesmente a arte como também tudo mais que dela resulta.