Pelo caminho
Entre o que se lê e o que se vê, há algo que se perde. Se o texto já não diz mas antes se mostra em sua própria origem gráfica, talvez os significados da linguagem escrita tenham se perdido.
Em Espaçamento penso num texto no espaço, ampliado de tal modo que o branco do papel que fica entre uma linha e outra venha a ser a própria parede do espaço expositivo. O texto não desaparece, está ali em sua presença máxima mais presença do que código a ser lido, decodificado.
Carbono-14 é o registro de restos de escritas fotografadas e ampliadas nas 14 caixas de luz. O papel-carbono guarda uma espécie de memória de todos os traços, textos, palavras, números, sinais que passaram por ele. É também por esta memória que os registros ali marcados se apagam, desaparecem pelo excesso, pela sobreposição, pela saturação. Restam vestígios de escritas descartadas, uma vez que os papéis foram coletados quando já eram jogados no lixo.
Se os textos se perdem em Espaçamento e Carbono-14, permanecem ainda suas referências gráficas. Talvez se afastando do texto ocorra uma possível aproximação da escrita com a sua origem primeira: o desenho.
Que seja então algo entre o que é representado e o que desconstrói ou desloca essa representação. Que seja uma maneira de perceber o que já conhecemos para além ou aquém do que nos parece cotidiano e habitual.
Entre o que se diz, o que se lê e o que se vê e tudo aquilo que se perde no caminho permanecem os trabalhos e suas leituras possíveis.