Um Japão com jeito brasileiro
Um século depois do navio Kasato Maru aportar em Santos (SP) com os primeiros imigrantes japoneses, a Bahia recebe os mais belos frutos da presença nipônica no País. A mostra de arte nipo-brasileira Abraços na Arte: Brasil/Japão, que tem vernissage quinta-feira, 11, à noite, foi concebida especialmente para o Palacete das Artes Rodin Bahia, dentro do ano de comemorações pelos 100 anos de imigração japonesa no Brasil.
A exposição traz 70 obras de artistas fundamentais dos dois países, mostrando como a arte japonesa influenciou o Brasil e se influenciou por ele. A iniciativa é realizada pela Niplan Engenharia, juntamente com o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia e a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, além de diversos patrocinadores.
Fizemos uma exposição onde contamos toda a história e a trajetória da arte nipo-brasileira, mostrando as influências recebidas no Brasil e o que foi trazido do Japão, explica Yugo Mabe, diretor do Instituto Manabu Mabe, que fez a curadoria em parceria com Roberto Okinaka, cenógrafo do Museu Afro Brasil.
Sendo ambos artistas plásticos e filhos de artistas (Yugo, do ícone Manabu Mabe, e Roberto dos pioneiros Massao e Alina Okinaka), ficou mais fácil os convites aos colegas e o empréstimo de obras importantes.
O resultado é uma mostra sem precedentes, com trabalhos inéditos, alguns até concebidos especialmente para ela. Optamos pelos artistas mais expressivos em cada geração. A mostra está completa, enxuta e é uma grande exposição, comemora Yugo.
Pioneiros Abraços na Arte é dividida em três momentos: Os Pioneiros, Desbravadores do Abstracionismo e Geração Livre: Os Descendentes. Na primeira parte, figurativa, com os trabalhos de representantes do Grupo Seibi, o visitante pode perceber o encantamento dos artistas japoneses com a exuberância da natureza brasileira e de seus costumes.
É aqui também que o visitante reconhece paisagens baianas em vários quadros de Massao Okinaka, que pintou, entre outras, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e a Cidade Baixa. Meu pai, quando veio a Salvador, na década de 50, ficou tão impressionado com a arte popular que acabou incorporando alguns de seus elementos, conta Roberto.
O fascínio pela cultura baiana, com sua marcante influência africana, calou fundo também no filho. Roberto, além de cenógrafo do Museu Afro Brasil, acaba incorporando muitos elementos com referências africanizadas no seu trabalho, sempre utilizando materiais naturais, como penas e pelagem.
Segundo movimento A segunda parte da mostra Desbravadores do Abstracionismo traz trabalhos de artistas como Manabu Mabe, Tomie Ohtake e Flávio Shiró, que marcam a passagem da figura à forma pura. Imensos quadros, como Desejo, de Manabu Mabe (que há dez anos não era exibido), ou Folhas de Uva, de Kazuo Wakabayashi, feito especialmente para a mostra, dividem espaço com a geométrica escultura de Yutaka Toyota ou o erotismo da obra de Tomei Ohtake.
Subindo para o segundo pavimento o visitante vai encontrar os trabalhos da Geração Livre: Os Descendentes. Para fechar o círculo de influências, os curadores convidaram para partilhar o espaço artistas japoneses contemporâneos que também se inspiram no Brasil.
Depois de encher os olhos com as cores vibrantes, as formas sinuosas e a precisão dos criadores de alma dividida entre dois países tão diferentes, será que dá para arriscar a explicar o que é arte nipo-brasileira?
Yugo afirma que vê uma coisa mais Brasil, mesmo. Roberto aponta o perfeccionismo japonês, que pode ser percebido em cada obra, mas ressalta: O principal é a paixão que todos sentimos pelo Brasil.
Palestra Para tornar o presente completo, os baianos ainda ganham uma programação especial atrelada à mostra. Nesta quarta-feira, 10, acontece, com entrada franca, às 18h30, no Palacete das Artes, a palestra Transição da Arte Nippo-Brasileira (Pioneiros, Abstracionismo e Geração Livre Os Descendentes), com a presença de Yugo Mabe, Roberto Okinaka, Yutaka Toyota, Kazuo Wakabayashi e Ayao Okamoto.
Artistas
Alice Shintani, Alina Okinaka, Ayao Okamoto, Bin Kondo, Flávio Shiró, Futoshi Yoshizawa, Hisao Ohara, James Kudo, Kazuo Wakabayashi, Kimi Nii, Lydia Okumura, Manabu Mabe, Mário Ishikawa, Massao Okinaka, Megumi Yuasa, Midori Hatanaka, Nobuo Mitsunashi, Roberto Okinaka, Sachiko Koshikoku, Tadashi Kaminagai, Takashi Fukushima, Taro Kaneko, Tikashi Fukushima, Tomie Ohtake, Tomoo Handa, Tomoshigue Kusuno, Walter Shigeto Tanaka, Yoshiya Takaoka, Yugo Mabe, Yuji Tamaki, Yutaka Toyota.