Pintura que não foi..., nem vai... , ainda a pintura.

Expor, lado a lado, mestres como Volpi e Iberê, excelentes pintores como
Sued, Guinle e Pasta, uma geração iniciada nos anos 80 e ainda em atividade, e gente que agora desperta para esta tradição pictórica, por assim dizer,
vigente no país, é algo de bastante relevante para quem acompanha o meio de arte. Não seria o caso de um balanço de alcance histórico, já que teríamos
de nos debruçar mais detidamente no vário trabalho de cada um dos artistas,
o que já seria outro caso de análise crítica. Mas arriscando um palpite
pouco fundamentado, não é difícil ver no atrito estético destes exemplares
de obras, na fricção de um com outro, um campo comum de atividade e reflexão plástica. E se miramos os mais jovens o tiro desta opinião talvez não saia mesmo pela culatra. São em sua maioria trabalhos muito bem meditados em seu aprendizado das tradições e recursos, não estilizações baratas, mas reflexão que brota em um gesto com o pigmento, no desenhar a massa de tinta, numa experiência de interferência cromática, na relação nada fácil com o suporte, numa operação dispositiva ou figurativa, ou até no mais simples saber pincelar, eventos pictóricos que despertam nossa imaginação para um campo bem ampliado de experiências deste gênero referencial à modernidade, e que malgrado suas crises e anunciados fins, é na contemporaneidade um dos mais relevantes para pensar esteticamente a Arte.

Claro que estes desdobramentos não se dão num jogo de referências unicamente locais, muito do diálogo com a produção internacional desde os anos 50 se torna visível neste apanhado de obras. A verdade é que há tempo produzimos aqui uma arte em plena troca de "linguagens" com os meios e circuitos mundiais que, em geral, tem sua boa qualidade, nos tornando bem mais consistentes num diálogo visual com o restante do mundo. Muito embora, se veja por aí a fora certas apropriações impensadas, sem convívio mais estreito com trabalhos de arte, obras aderentes a uma noção de “linguagem” como sistema auto-referente, como recursos sintaticamente disponíveis para operações pré-determinadas; não como um campo de discursos plásticos aberto a devires. Contudo, deixemos para o sabido tempo esta seletividade de valorações e juízos.

Uma última questão: e como poderíamos considerar um gênero "pintura" num campo tão ampliado de referências plásticas como é o campo estético da contemporaneidade sem operar bruscas reduções? Para além da obviedade de que a pintura é alocar algo no espaço expositivo através duma relação com as paredes e fazer uso de pigmentos e valores cromáticos, é impossível qualquer noção substancial desta arte. Ou então diríamos como um célebre definidor: "o sonífero é uma droga com virtudes dormitivas". Melhor interromper esta fala e deixar os olhos se ocuparem dos trabalhos sem recorrer a conceitos prévios. É muito bom ver que neste campo da “pintura” um belo jogo ainda está sendo jogado sem as rígidas regras de meios mais institucionalizados da Arte. Ironia do destino?


Afonso Luz