Galeria Virgilio inaugura mostras individuais
de pintura das artistas Ana Sario e Mariana Serri

A Galeria Virgilio inaugura no dia 21 de outubro, quinta-feira, às 20 horas, as mostras individuais de pintura das artistas Ana Carolina Sario e Mariana Serri.

Ana Sario (São Paulo, SP, 1984. Vive e trabalha em São Paulo)
Apresenta 12 pinturas (óleo s tela) em tamanhos entre 170 x 150 e 20 x 26 cm. Texto de apresentação de José Bento Ferreira.
Graduada em Artes Plásticas pela Faculdade Santa Marcelina em 2008. Participou de diversas exposições coletivas dentre as quais destacam-se Incompletudes, realizada neste ano na Galeria Virgilio; 38º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, em Santo André, SP; Ocupação, na Casa Contemporânea, em São Paulo, SP; e a exposição Prêmio Energias na Arte, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Além de seu trabalho artístico, Ana foi assistente curatorial dos artistas Arthur Lescher e Lenora de Barros na 7ª Bienal do Mercosul.


A EXPERIÊNCIA DA CERA

Não deve ter havido uma primeira fotografia, isenta da visão de artista. Embora artisticamente despretensiosas, as fotos que Ana Sario fez pela cidade não são aleatórias. As pinturas foram produzidas a partir de fotos. Mas cada foto já apontava para a pintura.
Essas fotos são mediações entre a visão de artista e o mundo da vida. Representam uma espécie de suspensão cética do juízo: nem a experiência direta do tipo impressionista nem a reclusão purista da pintura abstrata. Mas por que terminam descartadas pelo processo de produção das obras?
Porque a solução do impasse não poderia residir nos cliques fotográficos pura e simplesmente. As fotos ainda são de coisas. E era preciso olhar para o mundo de uma outra maneira. Mas isso pareceu impossível para Ana Sario. Pelo menos no campo da pintura, de fato se está sempre entre o retorno às coisas e a subjetividade, ou como diz Rodrigo Naves: “entre a subjetividade moderna e uma poética cool”.
Mas as fotos eram registros de uma experiência que ainda podia ser interrogada. Então se definiu o sentido dessas pinturas. Elas eliminam a objetividade das coisas, não para transformá-las em formas puras, mas para tematizar a pura experiência delas, ou a experiência em estado bruto. A verdadeira mediação entre a visão de artista e o mundo da vida não são as fotos, enquanto coisas, mas as fotos enquanto fatos, ou a experiência da qual elas são meras impressões.
Ana Sario compreendeu que, para interrogar o conceito de experiência por meio da pintura, seria preciso estabelecer com as coisas pintadas uma relação diferente daquela que se trava na vida comum, a relação entre sujeito e objeto. Seria preciso provar a capacidade de constituir um tipo de experiência que não se deixasse submeter às coisas nem se perdesse nas “espessas trevas” do “incomensurável espaço do supra-sensível”, nas belas palavras de Kant.
Desvendando os meandros das ruas, todas as coisas se desmantelam: não vemos a esquina, o prédio, a janela, mas arranjos de objetos. Não se trata de criar campos de cor que aludem aos lugares da cidade para apreciar a harmonia das formas. Trata-se de fazer valer nossa capacidade de assumir o controle da visão que temos da cidade, tomar as rédeas da experiência por meio da pintura.
Por isso o recurso à mistura de cera na tinta a óleo, responsável pelo aspecto maciço das pinceladas, tão intensas quanto disciplinadas. Elas comprimem os objetos no espaço plano. A partir do momento em que acreditamos reconstituí-los olhando para as telas, eles já não são coisas. O que se configura para nós são aparições das fotografias, como pentimentos. Por si sós, as fotos não revelam esse espectro da experiência que são as pinturas.
A leveza e a graça da tinta a óleo, assim como a consistência artesanal da têmpera e também a desenvoltura afetada (cool?) da tinta acrílica seriam incompatíveis com o projeto de Ana Sario. É preciso considerar o acerto da adição de cera ao óleo não apenas como uma questão técnica, mas como um passo importante do pensamento poético com resultados evidentes para o aspecto exterior das pinturas.
A combinação de precisão e força permite que as paisagens urbanas pareçam montagens, apesar da desordem das cidades “avessas à linha reta”, como diz Sérgio Buarque de Holanda. A imponência das massas pode ser suavizada por linhas tênues, como as da fiação dos postes diante de um paredão. Espaços vazios confundem-se com a opacidade dos prédios, ela mesma uma outra forma do vazio. Por outro lado, os ladrilhos coloridos em “Jaguaribe” preenchem o espaço, tanto quanto as construções de tamanho médio que aparecem em meio aos prédios. Onde estaria o espaço vazio, o ar entre eles?
Parece haver nas pinturas uma preferência por esse modo mais singelo de ocupação do espaço, enquanto os prédios maiores são pintados em tom de lamento. Apesar do rigor das pinceladas, quase se adivinha neles a melancolia das paredes descascadas. Em sua coloração crepuscular, porém, há uma atmosfera de fim de tarde que sugere um certo alívio, suspensão temporária das hostilidades do dia.
As cidades são o resultado dos nossos costumes e da nossa história, transformá-las é uma questão política de responsabilidade e luta. A arte pode ser um modo de representar as coisas do mundo como se elas fossem de acordo com nossa livre e esponânea vontade, o que pode ser entendido de várias maneiras, mas com certeza não significa que na realidade as coisas sejam de acordo com a nossa vontade.

José Bento Ferreira


Mariana Serri (Belo Horizonte, MG, 1982. Vive e trabalha em São Paulo)
Apresenta 14 pinturas (óleo e cera sobre tela) e 3 fotogafias (moldura pintada).
Artista plástica formada em Artes Plásticas pela FAAP em 2005. Expôs em diversas exposições coletivas, com destaque para o Projeto Audiovisual da 7ª Bienal do Mercosul, realizado em parceria com Lucas Arruda; entre 5 paredes, realizada no 37º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, em Santo André, SP; no 40º Salão de Arte de Piracicaba; na 11ª Bienal de Santos, SP; no Programa de Exposições de Ribeirão Preto, 13º Salão dos Novos de Joinville, SC; no IV Território da Arte de Araraquara, SP; e na 37ª Anual de Artes da FAAP, quando recebeu prêmio pelo vídeo Domingo. Paralelamente a sua carreira de artista, Mariana coordena o setor educativo do Instituto Tomie Ohtake.


Em sua primeira exposição individual, Mariana Serri apresenta um conjunto de pinturas e fotografias nas quais somos confrontados com um estranho universo de paisagens em que paradoxalmente a intensidade das cores nos leva à experiência de um mundo silencioso, imóvel, simultaneamente próximo do que vemos, mas distante do real. Há algo de fantástico nesses trabalhos que nasce de uma observação de coisas relativamente banais, como frutas e legumes, ou paisagens que a artista encontra durante suas caminhadas, e que transfiguradas pelo uso muito intenso de cores saturadas passam a existir no aqui e agora. Seus trabalhos vivem um momento de anterioridade, no sentido em que não se deixam capturar pelo ritmo de uma narrativa contínua. Ou ainda, parecem reter da realidade cotidiana aqueles instantes de dilatação em que de repente presenciamos uma paralisação do tempo e do espaço, numa espécie de recorte transversal na superfície do mundo.

No caso de suas pinturas, esse tempo em suspensão é configurado a partir de contrastes muito marcados. Em primeiro lugar, Mariana Serri trabalha com articulações de cores fortes e muitas vezes estridentes, que em sua artificialidade dão à pintura um aspecto quase de objeto. Por outro lado, essas dissonâncias se revelam também nessa estranha convivência entre motivos tratados de forma realista e que são inseridos em campos chapados de cor, gerando lugares improváveis. E se na série de dípticos Talude, sugere-se uma certa continuidade entre as telas pela junção de um horizonte imaginário, há um constante deslocamento de assunto e perspectiva que rompe com qualquer noção de desenvolvimento linear espaço-temporal.

O que o conjunto revela então é a construção de um certo universo nonsense em que aproximações insuspeitas entre coisas e cores parecem querer reverter o significado usual do mundo. Há claramente aqui uma intenção que busca deslocar sentidos, estabelecer recortes e respiros. Como, por exemplo, nessas fotografias em que a partir da percepção de semelhanças pontuais entre as imagens, a artista constrói um novo lugar, uma nova estória, em que tudo é verossimilhante, mas numa ordem paralela a da realidade. Diante dos excessos discursivos de boa parte da arte que se faz hoje na busca de sentidos fechados e exatos, é dessa abertura para outras possibilidades de significação que o trabalho de Mariana Serri retira sua singularidade.

Taisa Palhares


Serviço:
Evento: exposições individuais de Ana Sario e Mariana Serri
Abertura: 21 de outubro, quarta-feira, a partir das 20 horas
Período expositivo: de 22 de outubro a 13 de novembro


Informações para a imprensa:
Décio Hernandez Di Giorgi
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