AR
Déborah Paiva

O ar: elemento que atravessa, que nos invade e nos impulsiona, o onipresente e a quase ausência, o invisível, a imensurável presença, instável, amorfo, o que não se prende, nem escorre e não se queda, partículas em dança como pares que se laçam e logo se descartam. Na pintura, o ar é a alegoria do que desestabiliza, do que prende as formas em suspenso, elas se tocam mas quase não se conhecem. As formas não são mais os blocos sólidos de Cézanne que refletem luz, são outrora uma faceta de um mundo que transita, que quase levita numa impessoalidade de desencaixe.

A pintura de Déborah Paiva parece sempre permear, aspirar por um formalismo ético, onde o abstrato jamais se equilibrou em uma harmonia retirada, mas ao contrário, há ali um compromisso com a vida. Víamos mapas nas manchas de tinta espessa e saturada de suas telas abstratas de mais de uma década atrás. Depois, veio a série “Às Cegas”, onde longos riscos metálicos recobriam o todo da tela, como estrelas cadentes ou chuvas de granizo. Outras fases vieram, e a abstração ia aos poucos perdendo sua máscara e o figurativo emergia; foram os desenhos que fez ilustrando poemas em sua individual em 2005, “Cor aos pedaços”, ou antes, As Ogivas de sua exposição “Teatro das Operações”, no Instituto Mariantonia.

Déborah agora se resolve por uma fatura mais fina e delicada, em que o óleo seria apenas aquela primeira camada do acerto. Encontramos assim claramente em algumas de suas telas figuras, pessoas com seus objetos. São pessoas que nos dão as costas, como se fossem elas nós mesmos, observadores de uma cena, de uma construção que quer o ar como sua alegoria. São elas, essas pessoas, parte desse jogo de atração e repulsão, do conectado e do aleatório. Estabelecem essa silenciosa tensão com o fundo do quadro, como o próprio fundo parece assim se articular. São construções em tons esquivos, que não se impõem ainda que também não se escondam. O uso abundante do branco, talvez como se aludisse a alguma ausência, e o seu silêncio e o ruído quando sua borda toca as cores circundantes, é assim como àquele do ar que nos sussurra quando toca os líquidos e os sólidos.

São pinturas algumas figurativas, outras abstratas como construções de um mundo por vir. As figuras que vemos parecem observadores de uma cena, um expectador que subiu ao palco e passa a fazer parte da peça sem saber o enredo.

Juliana Moreira


ARGONAUTA
Leopoldo Ponce

Onde começa a lei, onde se termina a pedra?
As Sete Esferas de 2007 já não eram o início, porém, demonstravam que o caminho se punha aberto para que nele adentrássemos, penetrando através do cone, infinito. A figura geométrica que se mostra reincidente nos trabalhos atuais novamente se coloca de maneira convidativa e, por vezes, assume formas distintas. Se num momento se faz tátil, noutro exige atenção para seu vértice e esse resguarda o que talvez seja a verdade dos universos de Leopoldo Ponce.
Tudo em seu trabalho se prolonga e assume o seu lugar, embrenhando-se, tomando-o à força. A criação nos convida como que se impondo, numa relação atribulada de aproximação indevida, despropositada. Saltam em nossa direção buscando contato. Porém, esse processo embute uma breve leveza e se coloca numa confortável contradição.
O Mensageiro tem em sua frente um horizonte em que o artista possibilita um mergulho em pequenas pausas. Há um impedimento natural daquele que se faz ouvir. A descontinuidade dos planos subverte a ordem da paisagem e não há como escapar. É esfera, mergulho, planetas e oceanos. É a palavra.
Leopoldo Ponce chega a ela através das coisas juntadas. A matéria num processo involuntário, descabido. Explora os elementos que acumula com o decorrer do tempo – talvez refletindo sua vontade em explorá-lo à revelia. Como se detentor de tal façanha. Tolos seríamos em acreditar apenas no possível.
Materiais que ganharam vida onde antes haveria apenas o detrito, desabitado, criam paisagens prováveis. O tempo - numa inversão ousadamente escavada pelo artista - não é o senhor dos dias e o artista impetuosamente, se dispõe contra as relações tradicionais de desgaste e memória para então nos brindar com sua estética natural, fugindo do foco austero que se coloca quase sempre a frente na padronização atualizada.
A palavra de Leopoldo, vigorosamente ordenadora de seu imaginário é sinal de que sua evolução se assegura na completude do processo artístico. Essa comunicação com seu inconsciente - e esse é o mistério fabuloso que nos impele a chegarmos até ele – vai muito além de quaisquer transmissões de conceitos. Ela é reveladora de instinto, absoluta em se fazer verdadeira.
Acostumados a hierarquizar o mundo, recortando-o para tentarmos entendê-lo é a nossa limitação de fato e, talvez aí, se encontre o engano. Esforçamo-nos para desvendar aquilo que o artista assume em sua linguagem de maneira tão clara e continuamente. Como se buscássemos a praia para sabermos onde termina o mar.
A pedra, origem, mantenedora dos materiais todos fora maculada pela mão do artista para que num processo medial, se estabeleça a lei. O que há de estranho nisso? Talvez se olhássemos apenas ela entenderíamos claramente àquilo que nos parece inatingível, porém, insistimos em ver o que se coloca mais próximo. Por não entendermos o sentido do objeto inanimado não o percebemos vivo. E é exatamente aí onde começaríamos a entender que ele é a própria lei.

Renato Silva


Débora Paiva | Ar
Leopoldo Ponce | Argonauta

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Abertura: 09 de março de 2010 às 20h
De 10 de março a 1 de abril de 2010
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