" Ainda não, Contrapássaro " - Ana Paula Oliveira

Abertura: Quarta-feira, 25 de novembro de 2009 às 20h
De 25 de novembro a 10 de janeiro de 2010
Segunda a sexta, das 10 às 19h
Sábados e feriados, das 10 às 17h


Ana Paula Oliveira testa equilíbrio e sustentabilidade
em mostra individual na Galeria Virgilio

Artista desafia a força da gravidade na individual “Ainda não e contrapassaro”, apresentando instalações realizadas com dormentes de madeira e sacos d’água com peixes vivos e obra ambiental, onde pássaros de chumbo equilibram placas de ferro suspensas no ar.

A Galeria Virgilio inaugura no dia 25 de novembro, quarta-feira, a mostra individual “Ainda não e contrapassaro” da artista paulistana Ana Paula Oliveira. Na exposição, que conta com texto de apresentação do artista Nuno Ramos, são exibidas duas grandes instalações em que a artista desafia a força da gravidade a partir do uso de materiais diversos como dormentes de madeira e sacos d’água e placas de ferros e pássaros de chumbo.

Logo no andar térreo da galeria o visitante é impactado com a obra Contrapássaro, nome curioso que já prenuncia o delicado equilíbrio que a artista estabelece ao usar pássaros de chumbo como contrapeso para as chapas de metal e de borracha suspensas por um fio de ferro, instalados no centro da sala. Na mesma sala, a artista exibe outro trabalho onde um pássaro taxidermizado ajuda a manter duas placas de vidro de pé. Para Nuno Ramos, este trabalho geométrico e literalmente desequilibrado “é um exemplo de sucesso nessa nova etapa, pois há nele uma articulação entre as partes que tem nitidez inédita, mas que não falseia o contorno estilístico da obra”.

Na série de instalações intitulada Ainda Não, situada no primeiro andar, Ana Paula apresenta uma nova situação de equilíbrio frágil, porém desta vez não são placas de metal os objetos em suspensão, e sim sacos d’água com peixes vivos apoiados na parede por enormes dormentes. Para Nuno Ramos, “as duas coisas são tão alheias que parecem afinal estabilizar-se mutuamente, numa espécie de destroço involuntário que ninguém sabe bem como foi parar ali, daquele jeito”. Para ele, a intuição poética do trabalho, composta por binômios como “tocar sem sentir”, “abraçar sem fundir”, “aproximar sem interagir”, mantem-se intocada.

Acho que o problema de Ana Paula de agora em diante será desenvolver esta intuição mergulhando na linguagem, nas possibilidades da linguagem, mas sem perder a carga disjuntiva. Trata-se, afinal, de um pequeno paradoxo – fazer arte é sempre, de alguma forma, produzir linguagem (se deixarmos de lado, uma vezinha só, essa panacéia contemporânea em que se transformou o binômio arte-vida), mas, neste caso, sem juntar bem sujeito e predicado. No entanto, não há artista verdadeiro que não mergulhe no espelho do que fez, que não aprofunde sua potência diante do que elegeu como signo”, atesta Nuno Ramos.

Ana Paula Oliveira (Uberaba, 1969) vive e trabalha em São Paulo. Graduada e licenciada em Artes pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, a artista é professora de artes e também é diretora de arte e desenvolve cenários para espetáculos teatrais e circenses. Realizou mostras individuais no MACC (Museu de Arte de Campinas), CCCSP (Centro Cultural São Paulo) e CEUMA (Centro Universitário Mariantonia). Participou de exposições coletivas em espaços como o MUBE (Museu Brasileiro de Escultura), MARP (Museu de Arte de Ribeirão Preto), Museu do Ingá, em Niterói, RJ, Salão de Piracicaba e CCSP, entre outras.


Lé sem lé, cré sem cré (tomara que o mundo acabe)

O trabalho de Ana Paula não junta. Isso é o principal. Ele desconjunta, distrai, absorve, rasga, cai. Mas não junta. O galo de Alvorada (2004) não sabe nada do sabão. Os pássaros de Dos pássaros (2007) não sabem nada da borracha. Uma parte não sabe nada da outra. Há uma distopia pairando, não um contraste. O diferente junta, o disparate junta, o que é oposto junta. Mas o trabalho de Ana Paula não junta, e por isso surpreende tanto.

Essa é sua intuição principal, como mendigos fazendo discursos uns ao lado dos outros, indiferentes à mútua companhia; como atletas correndo provas separadas numa mesma raia. Algo arbitrário ronda, portanto, estas peças, necessariamente. É o arbítrio que as fez assim – arbítrio mesmo, distraído, estético. E se são tão mal acabadas, se quase desabam, se mal se sustentam em seus apoios, é para que essa indiferença entre as partes possa manter-se viva, sem fixação. Parecem, muitas vezes, ter sofrido uma pancada, mas a violência que vem delas, que aparece nelas, perceptível ao nosso olhar, é apenas secundária, embora estruturante. A verdadeira violência, primária, veio do ato mesmo de colocá-las ali, como uma cópula sem penetração, rondando, tentando. Por isso os passarinhos de Dos pássaros pareciam tão aflitos, voando por toda a parte, como uma nuvem bíblica de gafanhotos e não canarinhos de gaiola. A quem pertenciam? A si mesmos? Às esculturas da parede? A revoada emitia a pergunta sem descanso. No final, pareciam livres da obrigação de simbolizar, descarregados de si próprios, afastados enfim da doce identidade que têm os passarinhos de gaiola. Algo terrível nascera neles.

Em um dos trabalhos desta exposição, Ainda não, o peso de dormentes excessivamente dimensionados (como também em Elefante, de 2008) apóia reservatórios de plástico com água e peixes vivos. A vida que vai dentro dos sacos é absurda, rondando, quase morrendo, comprimida demais, numa estrutura de madeira e sacos plásticos que tem pouco a ver com ela. As duas coisas são tão alheias que parecem afinal estabilizar-se, esvaziando-se mutuamente, numa espécie de destroço involuntário que ninguém sabe bem como foi parar ali, daquele jeito. Os dormentes apenas apoiados, os sacos quase estourando sob o próprio peso, a falta de oxigenação dos peixes, a precariedade final que ronda tudo, formam a encarnação, a matéria da intuição poética de Ana Paula, pondo em conexão aberta, transitiva, os elementos chamados ao palco. Eles devem manter-se exatamente assim, quase insustentáveis, para que não sirvam uns aos outros, não colaborem uns com os outros. Por isso os dormentes são tão grandes – sustentam mais o próprio peso do que aquilo que carregam. Dessa forma, a intuição poética de todo o trabalho – aproximar sem interagir; chorar sem carpir; abraçar sem fundir; tocar sem sentir; penetrar sem procriar, numa fuga sem trégua ao terceiro termo, ao resultado da operação contrastante –, pode manter-se intocada.

Acho que o problema de Ana Paula de agora em diante será desenvolver esta intuição mergulhando na linguagem, nas possibilidades da linguagem, mas sem perder a carga disjuntiva. Trata-se, afinal, de um pequeno paradoxo – fazer arte é sempre, de alguma forma, produzir linguagem (se deixarmos de lado, uma vezinha só, essa panacéia contemporânea em que se transformou o binômio arte-vida), mas, neste caso, sem juntar bem sujeito e predicado. No entanto, não há artista verdadeiro que não mergulhe no espelho do que fez, que não aprofunde sua potência diante do que elegeu como signo. Essa potência é, já de saída, de alguma forma articuladora, com sua rede de possíveis traduzidos, conectados pela própria obra. Para desenvolver-se, o trabalho de Ana Paula terá de reconhecer-se cada vez mais em seu próprio estranhamento, mas sem enfraquecê-lo, sem deixar que a própria sintaxe plástica dê coesão ao que devia permanecer desconexo. Acredito que o segundo trabalho desta exposição, Contrapássaro, geométrico e literalmente equilibrado, é um exemplo de sucesso nessa nova etapa – há ali uma articulação entre as partes que tem nitidez inédita, mas que não falseia o contorno estilístico da obra.

Por isso, quando olharmos estes trabalhos (por mais que o saco esteja bem costurado, por mais que a chapa esteja equilibrada, por mais que o peixe solte bolhas de ar pela boca), será preciso prestar atenção ao sussurro que vem deles: tomara que o saco rasgue; tomara que a chapa caia; tomara que o peixe morra. E mais baixo ainda, numa voz bem fininha: tomara que o mundo acabe.

Nuno Ramos
Outubro 2009

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