A Galeria Virgílio abre em 12 de setembro de 2009 as exposições
individuais dos artista Fábio Okamoto e Marcelo Solá

A exposição “Aproximações” que Fábio Okamoto apresenta em sua segunda individual na Galeria Virgilio pretende discutir a representação dos espaços urbanos pela fotografia e as relações deste meio com o desenho e a pintura.

A mostra cria um diálogo entre essas instâncias procurado sempre pelo rompimento com “olhar da câmera” - racional, neutro e verossímil.
Para tanto é apresentado um conjunto de 14 fotografias, um vídeo e cadernos com anotações e desenhos de observação de espaços e naturezas mortas.


Nascido em Goiânia em 1971, Solá tem desenvolvido seu trabalho calcado fortemente em desenhos cujos temas variam de estruturas colossais monocromáticas, desenho-pintura, desenho-instalação sempre como atividade ampliada, quase obsessiva, caligrafia que se torna desenho e vice-versa, tomados por signos gráficos em papéis gigantescos até o uso intrigante e criativo da matriz verbal escrita. O resultado é uma justaposição de referências culturais, marcadamente urbanas e autobiográficas.

As obras apresentadas nesta exposição compõem 8 desenhos de 2m x 1,70m com os elementos tão mutantes e às vezes agrestes e sujos como uma imagem invasiva cheia de lacunas, espaços vazios e representações, tendo como referencia o autor: a parcimônia no uso de cores, referências cômicas e ácidas ao mundo urbano e um arcabouço gráfico de elementos tão díspares quanto animais, veículos e estruturas conceituais, tudo passando ao largo do que outrora se chamava de arte figurativa.

Abertura: Sábado, 12 de setembro de 2009 às 11h
De 12 de setembro a 10 de outubro de 2009
Segunda a sexta, das 10 às 19h
Sábados e feriados, das 10 às 17h


Camadas de sentido - Fábio Okamoto

O repertório visual urbano é desde há muito um leitmotiv para boa parte da obra de Fábio Okamoto. É sobre ele que o artista opera e desenvolve sua pesquisa fotográfica, movido por um olhar preciso e treinado na captação do potencial de plasticidade oferecido pelos objetos, arquiteturas, ângulos instigantes e demais arranjos que a metrópole calhe de conter.

O foco de sua produção agora se mostra claramente fechado no desejo de uma aproximação com o vocabulário formal da pintura, em um mote investigativo que indica o afã em se valer da fotografia também como um veículo a ser explorado para além das especificidades clássicas desta linguagem. Texturas e grafismos de intenso apelo gráfico em muros e paredes descascadas — ou "pinturas espontâneas", como o artista sintomaticamente as chama —, suas imagens se convertem em "situações estéticas" prontas mas também podem ser vistas como um delicado comentário arqueológico do presente, ao escavar nas fissuras da cidade certa energia vital que insiste em sobressair do tecido da urbe de modo silencioso, apenas à espera de ser percebida e capturada. Tal procedimento sugere uma pulsão de se recuperar em alguma medida uma idéia de beleza possível em meio à profusão de estímulos sígnicos que conforma a visualidade convulsiva da grande cidade; beleza que se revela sorrateira e inegavelmente nas formas que emergem por detrás de camadas de tinta e reboco que as encobre. Mas por trás de tal leitura, de tons estetizantes, há ainda uma vontade de dar vazão a outras inquietações, outras camadas de sentido: aquelas que falam do ruído que rege a existência na metrópole. Ruído surdo, que se confunde com os tantos dispositivos compulsórios de amortecimento perceptivo e pasteurização das sensações que condicionam a experiência da vida urbana cotidiana

Mas... também essas frestas que Okamoto revela não se constituiriam em um tipo de ruído elas próprias, em sua presença quieta e dissonante, a um só tempo imbricadas e alheias ao contexto em que se encontram? Capturadas em composições de sóbria elegância, estas fissuras "pictóricas" emergem um pouco como cicatrizes belas e incômodas, a um só tempo assinalando o desencanto com a ação humana que as encobre — há aí uma idéia de "ruína" que interessa ao artista — como a possibilidade de entrever alguma leveza em meio a tanto peso.

O uso do preto-e-branco em algumas imagens reforça a vocação de expressividade abstrata involuntária das texturas-décollages que brotam das camadas de tecido urbano que as recobrem. Acentua deste modo certo distanciamento deliberado do registro fotográfico documental ou "etnográfico" — ainda que dotado de grande plasticidade — caro a Okamoto em sua abordagem francamente pictórica de tais situações. Por outro lado, as imagens com elementos da natureza [água, pedra] re-introduzem um referencial fotográfico mais "puro" nesse conjunto, sugerindo que a pesquisa do artista, embora atualmente marcada pelo alargamento dos limites inter-linguagens em seu processo — o que é reiterado pela apresentação de seus cadernos de desenhos —, segue comprometida com uma tradição da qual não pretende, nem precisa, se afastar.

Guy Amado


Desenho e Profanação: Marcelo Solá

A cidade e o desejo. “O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de uma cidade”, afirma Ítalo Calvino. Marcelo Solá posiciona seus desenhos entre a cidade e o desejo. Cria marcas, inscrições, vestígios como um andarilho que percorreu a cidade e seus avessos. Rabisca de maneira tão subversiva que faz do papel um lugar que parecia escondido, segredado, marginal. Ali se aproxima de escritos anônimos, gestos que parecem automáticos, sem pressões religiosas, políticas, ao que Charles Baudelaire denominou “escritos íntimos”. As cidades, assim, produzem estas marcas, nas portas dos banheiros, nos muros, no tronco das árvores, nas carteiras escolares. Solá arranha, destaca, apaga, sexualiza aquilo que elege como protagonista. Eróticos ou não, os símbolos adquirem o caráter obsceno. Parecem diários. Parecem escritos por vários personagem. Na escrita, Solá se metamorfoseia em heterônimos, “Chanter Clayson”, como Fernando Pessoa. E, talvez, por isso mesmo, as imagens sejam bem parecidas umas com as outras, já que a primeira pessoa do relato será sempre outra. No presença das marcas, da caligrafia, as diferenças acontecem, tornando-as individualizadas, mas absolutamente semelhantes. A subversão ao mesmo tempo anula e evidencia o anonimato dos sujeitos. Perambulando nas cidades, os desejos criam uma espécie de memória profana dos lugares. Por não saber quem és, cresce o meu desejo. Escritos anônimos, escritos automáticos, escritos íntimos.

Quando buscou o gesto expressivo, Jackson Pollock acreditava no automatismo. O automatismo foi decretado falácia ao percebermos que um Pollock se parecia com o outro. Como burlar o consciente? Tarefa impossível. A saída, se é que exista, é produzir declarações do “eu” que jamais substituem os sujeitos, apenas os identificam, como monogramas, assinaturas, carimbos personalizados, nunca o “eu”, sempre a outridade. Por isso, Marcelo Solá rabisca e desiste. Deixa as marcas do apagamento. Tangencia o mundo das sombras. Comunica-se por mensagens cifradas, evidenciando as errâncias do desejo. O gesto expressivo de Solá busca o elemento gráfico e comunicacional, entra “nas idéias pelas palavras”, parafraseando Anne Cauquelin. O sujeito torna-se meio e mensagem.

A obra de Marcelo Solá mostra-nos o interesse por profanações. Profana-se a superfície auratizada da tela e do papel, a limpeza na execução, os símbolos civilizatórios, a moral, os afetos, a aderência da tinta que escapa e escorre sobre o suporte. As coisas pertencem aos deuses? Usar ou profanar? Profanar, segundo Giorgio Agamben, significa “abrir a possibilidade de uma forma especial de negligência”, ignorando a separação entre o sagrado e o mundano. Solá escreve e rabisca, desenha e desmancha, monta arquiteturas cuja edificação é impossível.

Nos desenhos de Marcelo Solá para a exposição na Galeria Virgílio, vemos a predominância do preto e branco. Nas marcas e arranhões sobre o papel, lemos datas, 2 – 07 – 09; 28 – 05 – 09. Percorremos lugares: Stone house, hidrolândia, condomínio. Entramos em contato com materialidades descritas: sólido, água, terra. Ficamos cara-a-cara com um beco.

Manuel Bandeira, em 1933, escreveu o Poema do Beco: “Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? – O que eu vejo é o beco.” Leonilson desenhava pódios vazios, sem ser o vencedor. Marcelo Solá desenha becos, ignora a linha do horizonte. Atrai-se por quinas, escadas, cantos, aviões. Meios de se transportar, utopias para se desistir. Limites da observação. O olhar de Solá coaduna-se para um todo sem paisagem. A observação, ainda que pareça ampliar-se em céus, busca as brechas entre arquiteturas. Monumentos tornam-se brinquedos de montar, esquemáticos, de coordenadas, arestas, conexões desestruturantes, como uma espécie de herança construtiva em ruínas.

O interesse de Marcelo Solá revela uma atração pelos incorporais. Segundo Anne Cauquelin, as obras contemporâneas partilham de um fascínio pelo “irrepresentável, pelo indizível, pelo tempo diferido, pelo invisível, pelo vestígio do vestígio”. Na cidade contemporânea o excesso de informações mata a informação. O mundo comunicacional evidenciado nos desenhos de Solá age com uma “informação expulsando a outra”. Assim, vemos camadas de tinta que deixam semi-transparente o que está por trás da pincelada. O uso do preto funciona como uma potente metáfora da anulação, mas mantém a pregnância do que se tentou esconder. Obviamente, tudo isso trata-se de estratégias de expressividade num momento em que as grandes ilusões do expressionismo deixaram de ser dogmáticas. O desenho de Solá não partilha de dogmatismos. Critica ao mesmo tempo em que estetiza a presença do sujeito que subverteu a limpeza das cidades, mas não sucumbiu à castração do desejo.

Marcelo Campos

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