Galeria Virgilio inaugura individuais de Vanderlei Lopes e Karen Kabbani

Vanderlei Lopes

Na exposição “Inventário”, o artista plástico Vanderlei Lopes apresenta recentes desenhos, instalações, fotografias e objetos, nos quais articula e fricciona idéias de tempo e ação, de espiritualidade e violência, de micro e macrocosmo, em que há um sentido constante de reconstrução da natureza.

“Panteão” é um desenho feito com imitações de folha de ouro diretamente aplicadas sobre parede e piso da galeria. A forma de um círculo preenchido com a folha de ouro sugere a suspensão do tempo por meio da alusão à projeção de uma luz, buscando interromper o ritmo do espectador no momento em que percorre o espaço, demandando um movimento específico para a apreensão da obra.

“Inventário”, por sua vez, é uma série de 7 fotografias em que a mão do artista aparece modelando em barro figuras como uma xícara, uma chama, um osso ou um cogumelo atômico. Nessa obra, o artista faz um comentário do papel do demiurgo, do artista como deus, relacionando delicadeza e violência, micro e macrocosmo, por meio de uma ação, a sugerir a criação e a evolução dessas a partir da seqüência em que são exibidas.

Na escultura “Migração”, o artista também desvirtua o ponto de vista do espectador, porém desta vez lança mão de 7 pequenas esculturas em forma de pássaro feitas em bronze. Criadas a partir de um molde real, que foi diminuindo de tamanho a cada cópia, elas obedecem a um gradiente e estão dispostas de costas sobre o chão da piso térreo da galeria. Para Vanderlei, “a obra sugere uma alteração da percepção espacial, uma alteração do ponto de vista do espectador, em que o céu é o chão e estão apoiados no espaço”.

Em “Universo em expansão” Vanderlei também parte do paradigma da qualidade física de um material, neste caso o negativo de rachaduras de uma calçada de cimento, para criar relevos de parede feitos em bronze patinado de preto. “Ao serem transpostas para a parede, as linhas orgânicas das rachaduras sugerem a própria idéia de expansão, que é o oposto do movimento de retração do cimento, uma acomodação das geologias urbanas”, declara.

Nessa exposição, o artista ainda apresenta a série de desenhos de grandes dimensões intitulada “Queda”, onde a pólvora queimada desenha cachoeiras diretamente sobre o papel. Como em outros trabalhos do artista, a metalinguagem e o contraste entre representação e apresentação sugerem a troca de energias em transformação em que a água é representada pelo fogo, pelo resíduo queimado no papel, ao mesmo tempo em que os resíduos queimados se acumulam dentro da moldura.

Por fim, Vanderlei exibe a série de objetos em cerâmica “Gregas”, em que modelos de copos e ânforas gregos são usados como suporte para desenhos que fazem menção a um ideal de civilização.

Artista que vem se destacando no cenário de artes brasileiro, Vanderlei tem participado de diversas exposições coletivas em espaços como o MAM SP, Centro Cultural São Paulo e MAM Rio. Recentemente, participou da mostra “Nova Arte Nova”, no CCBB de São Paulo e do Rio de Janeiro, e realizou uma individual no espaço Maus Hábitos no Porto, em Portugal. Seus trabalhos são exibidos regularmente pela galeria nas feiras internacionais Pinta (Nova York) e ArteBA (Buenos Aires). Possui obras em coleções públicas de arte como a Pinacoteca do Centro Cultural São Paulo (CCSP) e o MAM Rio.

Durante o mês de abril, Vanderlei Lopes participa da coletiva “Brazilian News”, exposição de vídeos de artistas curada por Wagner Morales na École de Beaux-Arts em Paris.


Karen Kabbani

Na individual “15-21”, a artista paulistana Karen Kabbani apresenta quatro séries de obras em que a pintura, o desenho e a fotografia dialogam, ora juntos, ora em paralelo, trazendo à tona um discurso crítico às relações do sistema produtivo capitalista.

Abrindo a mostra no primeiro andar da galeria, é apresentada uma série de 40 fotografias coloridas em tamanho 45 x 45 cm onde são exibidos trabalhadores de linhas de produção de fábricas no interior da China. Despersonalizados, os trabalhadores estão absortos em suas atividades de costura e finalização dos produtos que são exportados para o mundo todo. Ainda que não uniformizados eles todos se parecem, uma vez que estão alheios à presença da artista, que capturou as imagens durante viagens realizadas à Ásia em 2007 e 2008.

“Consome-se mecanicamente aquilo que é feito por gente, gente de carne e osso que acorda cedo e trabalha horas a fio para produzir algo que imaginamos ser feito apenas por máquinas”, declara Kabbani acerca da dissintonia entre produção e voracidade de consumo de bens materiais. “O nome da exposição eu tirei do número da máquina de costura de uma menina que eu fotografei nos dois anos em que estive lá. Na segunda visita, eu a reconheci, sentadinha na mesma máquina, no mesmo lugar e praticamente com a mesma roupa”, esclarece.

Se de um lado da sala Kabbani remete o visitante ao aspecto desumanizado do sistema produtivo, na outra extremidade envereda pela senda do simbólico, exibindo três fotos da reluzente logotipia das grandes marcas internacionais estampadas nos arranha-céus de Hong Kong. A profusão de luzes da linha do horizonte contrasta vividamente com a paisagem algo melancólica dos prédios apagados da pulsante metrópole que concentra 6,2 mil habitantes por Km2.

Em uma espécie de movimento pendular em que opõe pictoricamente a massificação produtiva e sua redução simbólica a um conjunto de logotipos, Kabbani revela o lado mais humano da ilha em uma série perfilada de fotografias em que retrata o cotidiano da cidade, com suas feiras livres, excesso de gente, de ofertas, de neons e a profusão de gente na rua, agora de carne e osso, sorrindo e gesticulando.
Ainda que antagônicas em seus objetos, as séries fotográficas tratam de um mesmo tema, que é a dicotomia entre os extremos de um sistema produtivo que devora personalidades, transformando-as em produtos seriados que, auxiliados por um eficiente trabalho de marketing, são vorazmente consumidos no mundo todo, a despeito da precarização das relações sociais que promove. A matéria-prima dos trabalhos de Kabbani são essas arestas desconfortáveis que procuramos não observar.

Finalizando a mostra, a artista articula fotografia e pintura numa instalação dramática que sintetiza as diferentes vozes de sua crítica social. No corredor ao fundo da sala, o visitante se vê literalmente cercado por um híbrido de pintura mecânica, de efeito, e as conhecidas fotos das linhas de produção chinesas. Lado a lado, as fotografias são entremeadas por placas de poliestireno pintadas com esmalte sintético brilhante em linhas bem finas e coloridas que se assemelham aos borrões do conhecido programa de manipulação de imagens Photoshop. Feitas à mão, porém, cada uma das faixas encobre parte das fotografias numa alusão direta ao fazer manual, à humanidade perdida pela sanha do consumo.

A artista desenvolve suas pesquisas em artes plásticas desde 2005, quando começou a freqüentar cursos de arte com os artistas Paulo Pasta, Carlos Fajardo, Leda Catunda e Osmar Pinheiro, além dos cursos de história da arte com Agnaldo Farias, Rodrigo Naves e Charles Watson. Sua nascente carreira artística é pontuada por exposições coletivas em salões de arte como o 38º Salão de Arte de Piracicaba, o 36º Salão de Arte Contemporânea de Santo André, onde recebeu Prêmio Aquisição, e também no Museu de Arte Contemporânea de Ribeirão Preto. No ano de 2008, foi agraciada com o Prêmio Artes Visuais da Funarte Brasília.


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