OBJETOS E LUGARES TRANSFIGURADOS PELA IMAGINAÇÃO

A observação de Émile Zola, segundo a qual só vemos realmente as coisas quando as fotografamos, vem bem a calhar a respeito das fotos de Jurandy Valença mostradas na Galeria Virgílio. A exposição abrange 16 imagens digitais produzidas pelo artista entre 2005 e 2007, onde predomina o tema da observação atenta daquilo que normalmente nos passa desapercebido: um interruptor de luz, uma campainha, uma parede iluminada pelo sol, um simples lustre ou abajur, uma escada e assim por diante. São imagens comuns, quase banais, mas o olhar de Valença as transfigura em aparições inusitadas, seja pelo recorte inédito operado pela câmera, seja pelo processamento digital posterior, que espelha, superpõe e multiplica as tomadas originais, seja ainda pelos seus títulos metafóricos, que sugerem ao espectador outras possibilidades de interpretação.
Na verdade, Jurandy Valença joga com a ambigüidade da fotografia, sobretudo da digital, que se faz passar por uma captação fria e objetiva das coisas visíveis do mundo, mas termina por se revelar uma verdadeira reconstrução de mundos paralelos e impossíveis, mais afinados com a tradição imaginativa das artes plásticas do que com a fatalidade documental da fotografia. As fotos de Valença, sem abrir mão de suas características mais propriamente fotográficas (imagens bem definidas e focadas, iluminação discreta e dirigida ao motivo, enquadramentos que valorizam a perspectiva), criam objetos e lugares aberrantes, que não poderiam jamais existir, a não ser na imaginação do artista e na livre interpretação dos espectadores. É como se, contrapondo-se ao automatismo, à padronização e à despersonalização dos meios técnicos (câmera, software), o artista buscasse afirmar acima de tudo a sua humanidade e a singularidade de sua visão de mundo.
O trabalho criativo de Valença utiliza muito freqüentemente a fotografia, embora não se restrinja apenas a ela. O artista já havia realizado antes um expressivo trabalho com Polaroides (fotografias que se auto-revelam) e com apropriação de imagens preexistentes. O que há de comum entre os seus trabalhos anteriores e esse que a Galeria Virgilio agora exibe é o minimalismo da abordagem plástica das coisas. Como nos trabalhos anteriores, há pouco para se ver nessas imagens, a atenção se fixa quase sempre num detalhe minúsculo e discreto, com grandes manchas de espaço vazio ao redor, lembrando, nesse sentido, o despojamento e a essencialidade da obra de artistas como Malevitch, Yves Klein ou John Cage. Mas é justamente essa limpeza, essa opção pelo mínimo o que torna os objetos e os lugares fotografados por Valença tão especiais e tão significantes, ainda que, na vida real, pouca atenção damos a eles. Como costumava dizer o cineasta japonês Kenji Mizoguchi, é preciso lavar os olhos antes de ver cada imagem, para que a visão deixe de ser um ato vulgar e desatencioso, para se converter num ritual de celebração e conhecimento. Nesse sentido, a opção de Valença por uma imagem mínima, concentrada e transfigurada parece ser o caminho mais eloqüente para que o visível possa resultar enfim visualizado.

Arlindo Machado

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