RELEASE

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Felipe Cohen

Paulo Jares

Exposição 07 de Junho a 06 de Julho de 2006

Abertura   06 de Junho - terça-feira às 20 horas

Visitação Seg a sex das 10 às 19hs  / Sab das 10 às 17hs



Piso 1
Individual Felipe Cohen – “Duas Vontades”

"Felipe Cohen expoe 4 esculturas em diversos materiais que atualizam símbolos da iconografia tradicional a partir de questões da escultura contemporânea. Além de um vídeo e uma série de desenhos."


Texto

“Duas Vontades”
por José Augusto Ribeiro

O título da exposição de Felipe Cohen, “Duas vontades”, não se refere a uma dupla de forças antagônicas, conflitantes, em oposição uma contra outra, mas a duas pulsões que, em atrito, aspiram à conformação de uma unidade, um único corpo, este sim, com propriedades ambivalentes. As esculturas se constituem sempre de pares de materiais – madeira e mármore, granito e feltro, mármore e argila, vidro e madeira –, assim como os desenhos criam volumetrias que se distinguem por dois tons de branco: um luminoso, do pigmento, e outro opaco, do papel. A descontinuidade entre os elementos se virtualiza em sistemas de encaixe, de pressão e de apoio, que sugerem movimentos simultâneos de contração e de expansão dos limites físicos, seja entre as partes, seja na inteireza das peças. O que permite dizer que a substância desses fenômenos se revela na sintaxe de procedimentos, na concentração de energias destinadas à conexão, mais do que na conexão propriamente.
A articulação estrutural de matérias distintas realiza o nivelamento dos contrastes e, ao mesmo tempo, preserva a irredutibilidade das coisas, a fim de colocar em evidência a maneira como se aliam, se arranjam e se combinam aqueles que são diversos quanto à forma, ao peso, à superfície, à cor e à temperatura. As peças resultantes são determinadas pela concatenação de causas e efeitos. Tornam-se o elo entre a potência e o ato, o desejo e a necessidade de aliança. São o que querem e o que pretendem. Apresentam-se como a motivação dos nexos que estabelecem, tal qual “o homem é a objetividade de suas vontades”. Nas junções formais, o trabalho institui relação de mútua dependência entre os componentes, de modo a fazer com que cada um deles só defina aspecto e posicionamento no contato e na fricção com o antagonista. Daí a obra existir em oscilação numa escala que vai da sensualidade à transcendência: das matérias que se cruzam e se atravessam por força de atração à evocação da “forma suprema”, dotada de significados supra-sensíveis.
Isso fica evidente nos trabalhos que fazem referência à cruz, símbolo tradicional da iconografia religiosa e da história da arte. Imagem que, pelos sentidos díspares que acumulou no tempo, aparece nos tridimensionais do artista adaptada a sínteses analíticas: a uma ordem geométrica de equilíbrio duvidoso e a equações em que corpo e cruz surgem integrados, com distinção de papéis quase indeterminada. Na escultura de mármore e madeira, o que seria o personagem do sacrifício (a pedra) não está sob a cruz, carregando-a, mas debruçado sobre a estrutura que, agora, lhe serve de anteparo. A densidade do mármore se relativiza na sustentação que o mantém inclinado, com apoios por baixo, pelo lado, enquanto a aparência de desgaste da superfície esburacada, cheia de manchas, desmente o idealismo formal de seu corte retilíneo. Não há adesão nem ao signo do sofrimento cristão nem à tradição humanista da arte ocidental. A peça cuida de fundar seu próprio lugar, entre a abstração e a figuração, entre o martírio e o repouso.
Como em todas as esculturas desta mostra, a matéria que confere unidade a “Céu baixo” é a mais frágil das que a constitui. O trabalho consiste de uma chapa de vidro de três braços em “Y”, com cada um dos segmentos encaixado nas corrediças de uma gaveta de madeira. Tal disposição alude à figura de um corpo crucificado e forma, sob o vidro, um triângulo horizontal na área do piso entre os compartimentos, no centro da estrutura. Essa interioridade isolada, contida, parece irradiar força centrífuga para os vetores que delimitam uma espécie de espelho d’água no plano translúcido da obra. O campo reflexivo, virtual, capaz de trazer o que está no alto para o nível do chão – embora nenhuma imagem se fixe ali –, é o mesmo que aglutina, a partir de suas extremidades, o conjunto de gavetas que lhe serve de base. Noutros termos, trata-se de uma cruz despedaçada, cujas partes estão atadas por um corpo fluído, preso a elas como se as protegesse, como uma tampa. Não há nada nas gavetas para ver através do vidro. E como tudo ali tende a ser uma coisa só, a peça multiplica a presença do visitante para achatá-la num vazio tornado infinito entre o teto e o solo do espaço.
O vídeo presente à exposição, pelo contrário, forja um limite para o céu. O filme compõe-se de uma única cena de paisagem, um horizonte em plano de câmera que mostra o mar na margem inferior. Daí para cima, o enquadramento é tomado por um fundo branco sobre o qual, por vezes, incide um feixe de luz, uma sombra, sem a mesma profundidade de campo que têm as águas. Adiante no tempo, e de acordo com o nível do som provocado pela quebra de ondas, a barra dessa tela branca se levanta, aos poucos, com dificuldade. Um tanto mais, e volta; um tanto menos, e volta. Ergue-se numa ponta, noutra e no centro da imagem, por fins de sedução ou com esforço, em movimentos leves ou resistentes, sempre de acordo com o nível do marulho. Eis que, em meio à lentidão do vai-e-vem, uma lufada suspende o branco para revelar, por detrás, pedaços de um outro plano monocromático, desta vez azul. A brancura despenca de novo, e percebe-se o véu, a cortina que desce amassada do alto do quadro até ficar rente à linha do horizonte. Um pano alvo, amarrotado, que foi céu por alguns instantes e que transformou em algo falso, também por instantes, o céu azul, feito tecido passado a ferro. A despeito da cadência do mar, durante sete minutos, a ação principal do filme é o empenho do vento para desvelar um cenário sem atores, à beira da praia. São dois sopros, de vida e morte, que convergem para uma existência pendular, entre a euforia da vontade e a angústia conseqüente da satisfação.




Piso 2
Individual Paulo Jares

Paulo Jares artista paraense residente no Rio desde os anos 80, expõem as obras apresentada na 5º Bienal do mercosul. São 10 Fotográfias em grandes formatos.
O artista constrói imagens abstratas de grande força plástica, surgidas paradoxalmente no interior do próprio caos urbano. É precisamente nesse território desordenado das grandes cidades, onde o olhar atento e singular de Paulo Jares torna visível a cor, a estrutura, as texturas e a poesia que se tornaram invisíveis para os habitantes das cidades.

As fotos estruturam seu espaço a partir da cor e da luz, criando imagens de evidente pictorialidade. A densidade e textura quase tátil das fotografias também apontam para as marcas que o tempo deixa em todas as superfícies.


Texto

Paulo Jares – Desvio do horizonte
por Paulo Sergio Duarte

A fotografia de Paulo Jares sempre foi marcada por captar fortes e inteligentes oposições cromáticas em recortes das coisas e acontecimentos urbanos na qual a figura humana está sempre ausente. Todas são coisas que sofreram a intervenção humana; nunca vi uma fotografia de Paulo Jares de um ambiente natural; pode ser que exista, mas não está presente nas exposições que pude ver nem nas obras que constam de coleções privadas que conheço. Entretanto, esse homem que faz as coisas, que constrói as cidades, tampouco aparece, dele só vemos suas marcas. Todas as fotos são dirigidas por um olhar para baixo, não cabisbaixo, mas voltado para o chão e para as áreas às quais damos pouca atenção, é uma literal recusa da busca do horizonte, que raramente pode ser visto nos centros urbanos. Esse desvio do horizonte, por um olhar que desce uma rampa, resulta, entretanto, em acontecimentos plásticos poderosos, uma foto que dialoga intensamente com o campo pictórico da arte contemporânea. E, talvez, por isso mesmo, seja de certa forma o paradoxo da captura de coisas abstratas.
Nas sete fotos apresentadas, na 5ª Bienal do Mercosul, salvo Desvio para Malevich (2003), de um vermelho muito intenso, e o par Sem título 1 e Sem título 2, no qual na primeira as faixas amarelas alaranjadas são fortes, e a mesma cor aparece discretamente na segunda, as outras imagens são tons do cinza ao preto, passando por reflexos prateados. Esse exercício, realizado num trajeto diário, quando percorre certos trechos da cidade, não perde em força quando comparado com as fotos de cores intensas e oposições inusitadas. As fotos quase monocromáticas, intituladas Epicentro I, II e III, pelo movimento de sua superfície, seus brilhos e variações em torno de uma mesma cor e seus matizes, são testemunhos que o olhar estético consegue emancipar o mais simplório detalhe de um chão de rua à estatura de obra de arte. E é sinal de um mundo no qual esses prosaicos e despercebidos detalhes podem ser guardadores de mais potência poética que muitas figuras que circulam na mídia com toda sua pompa e sua glória.


Texto publicado em Direções do novo espaço. 5ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre, 2005.

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