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Vestígios do Dia

Wagner Morales é um artista que se interessa, sobretudo, pelas imagens em movimento. Sua série mais conhecida de vídeos aborda os gêneros do cinema. Em 2006, montou a instalação Fazer um vídeo, em que mostrava o passo-a-passo da realização de um filme. Muito do que Morales pensa sobre a ilusão do cinema é explicitado lá. Seu interesse é a reconstituição da imagem. Ele separa a sala de exposição em três nichos de filmagem. Em cada nicho acontece uma coisa diferente. No fim, a reunião desses três eventos faz com que a imagem se forme, de um modo simples e distanciado. Assim, longe de ser um registro fiel, a formação da imagem é uma reunião de eventos isolados de modo esquemático e mais ou menos arbitrário. As coisas reunidas são díspares, acontecem em separado.
Aqui, como em seus vídeos, Morales trabalha com os clichês, ícones e a linguagem do cinema. Vale-se de um princípio muito sintético de elaboração dos trabalhos, escolhe fotogramas de filmes conhecidos – uns mais e outros menos –, congela a cena, a recorta e projeta em um espaço real escolhido. No lugar, as imagens desenvolvem algum tipo de interação. Por exemplo, o artista, que não é bobo, coloca uma imagem da Brigitte Bardot deitada sobre uma cama de verdade. Os personagens, deslocados de suas funções nos filmes, são colados a um espaço real, como se tivessem realizando ações cotidianas nele.
A passagem da cena de um tipo de imagem para outro (do cinema para a fotografia) altera muito o sentido da ação. Por exemplo, personagens de filmes de Hitchcock e Fassbinder saem de contextos tensos ou dramaticamente carregados e aparecem em quartos, cozinhas, banheiros e garagens a fazer atividades rotineiras, do dia-a-dia. O perigo parece deixar de espreitar Janet Leigh na cena do banho de Psicose (1960). Aqui ela somente toma um banho demorado.
De modo geral, nessas fotos o artista parece dar férias aos personagens. Aqui suas ações são menos importantes. Eles não estão realizando coisas importantes para um filme. Seus atos são sem sentido e sem importância. Como em seus filmes, o artista parece suspender toda a dramaticidade das imagens em movimento. Elas surgem nessas fotografias paradas como imagens banais, que não respondem ao próximo fotograma. São vistas desempenhando algo que não é digno de nota, mas que todo mundo faz todos os dias.
Na série de filmes Vídeo de cinema Morales trabalhou com uma espécie de suspensão da ação e das convenções dos gêneros do cinema. Em Solitária, pobre, embrutecida e curta, filme de guerra, de 2004, por exemplo, o artista usava imagens que em nada se pareciam com uma batalha. A guerra era sugerida por meio de diálogos de outros filmes sobrepostos à imagem e pela maneira de posicionar a câmera - que muitas vezes olhava de longe. Mas o que se via era um dia-a-dia lento, modorrento. Não havia dramatização do combate e o cheiro de pólvora trocada não era percebido pela câmera. Não eram vistos tiros, cadáveres, tropas e nem inimigos se digladiando. O filme parece falar de coisas laterais ao esquema dos filmes de guerra, que não cabem na estrutura dos filmes hollywoodianos.
Como esses trabalhos, aqui as obras falam de coisas que parecem acontecer por trás das imagens, nas vidas normais dos personagens, longe da ação dramática. Ao deslocar as imagens, o artista joga o holofote nas ações sem importância teatral, cenas de todos os dias, que se repetem e não constituem grande coisa. Não por acaso, nessa exposição, as imagens estão paradas, são momentos em que a vida não passa, ou melhor, passa diante de nós, enquanto ficamos parados. Também não é à toa que nas fotos as imagens de cinema parecem-se com fantasmagorias, são coisas que estão sempre por lá, que nós nem notamos, passamos batido, como, talvez, os fantasmas.
Esse aspecto sempre presente, fantasmagórico, é o que existe de mais bonito na instalação que Wagner Morales mostra junto com as fotos. Aí, ele trata dessa repetição ad eternum das coisas da vida no cinema, mais precisamente nos filmes de sacanagem. O artista já havia brincado com as convenções desse gênero em seu Filme de foda (2006). Aqui acho que se trata mais do que isso, trata-se de falar de um prazeroso mais do mesmo que existe no cinema pornô.
As imagens de duas felações são projetadas na parede da galeria e registradas à tinta. O artista deixa elas marcadas por lá, vai direto ao assunto, quem quiser ver sacanagem nem precisa mais procurar outro filme, está lá, igual a sempre, por bem e por mal. Essa repetição da vida cotidiana – seja no cinema, seja na vida, que o trabalho de Wagner Morales parece falar. A vida é muito pouco, está cansada de aventura. Visto assim, o trabalho parece triste, descendente do que Andy Warhol tem de trágico. No entanto, não é exatamente triste. A beleza das imagens parece mostrar, como em no título de um filme de Yasujiro Ozu, que a rotina tem o seu encanto.

Tiago Mesquita