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Showcase of the World or Paintings of Walton Hoffmann´s Wonders

Sempre achei que o título que serviu para cantar as excelências de um tipógrafo chamado Boloña pelo poeta cubano Eliseo Diego, ajustava-se maravilhosamente à pintura de Walton Hoffmann pela sensação de que se tratava de uma mesma atmosfera, quase um canto à memória das ferramentas do homem, ou de um jogo entre uma enganosa ‘ilustração’ e sua adivinhação, o que também poderia guardar alguns enigmas (como observou Lygia Pape ao ver alguns primeiros trabalhos do artista.)

Aliás, “Enigmas para uma pintura” bem que poderia ser um subtítulo ou uma senha para esta obra. A reconstrução de um certo inventário do mundo, através de tipos gráficos em um caso, ou de imagens em sombras em outro, fazem parte da religião da miniatura, da verdade das pequenas dimensões. Mas as similitudes param por aí, nessa capacidade de emblemas que os signos adquirem e ultrapassam em sua necessidade de linguagem.

A pintura de Walton Hoffmann, para surpresa das classificações taxonômicas, persegue um approach que pode parecer pré-pop, de uma época de desenhos e gravuras antigas, muito anterior aos consumos das massas urbanas.

Como acontece com os trabalhos de Joseph Cornell, a infância, o simples universo que cabe numa caixa, os globos-mundos, são um pequeno palco de teatro. De fato, um aspecto visual que reforça a ligação com imagens populares de teatro mambembe ou de circo: a ‘moldura’ dentro do quadro nas partes superior e inferior, concede mais um jogo de representação nesta pintura, que não se deixa reduzir no seu clássico âmbito bidimensional. Esta fisicidade da pintura, que inclui moldura ou até variação de suporte -é o caso das caixas-, guarda uma sutil ironia representacional.

Mas não só nos aproximamos de uma simbologia da infância, de um paraíso perdido, de uma paisagem imaginária -a imaginação sempre é outra infância-, com seus reconhecidos jogos de armar, de aprendizado do mundo, puzzle, ou do chamado Lego, de onde vem a palavra legado, mas também de uma pintura onde os tempos se misturam. Os mundos desta outra época e de agora estão presentes, a atualidade está disfarçada, temperada por outro tempo e vice-versa -aliás como acontece com a filosofia da colagem onde épocas/estilos/imagens podem sobrepor-se. A pintura se faz fantástica, no sentido mais borgiano do termo, aquele que permite vários mundos em conexão e um rondo temporal.

É especialmente proveitoso contemplar como há outros tempos atravessando as telas e em direções diversas -objetos em direções contrárias, plurais- e ver os grandes espaços que há entre as coisas, o que ainda há por percorrer, porque nós somos ainda essa distância, essa conexão. Toda a poética pictórica de Walton Hoffmann tem uma distância a ser percorrida neste inventário da memória, tão diferente do realizado pela contemporânea arqueologia de Fernanda Gomes, por exemplo. De alguma maneira, cada vez torna-semais claro que a pós-modernidade também nos ensinou a reler melhor esta eqüidistância espacial, temporal e cultural que existe nestes quadros, nas coordenadas desta pintura, fora das velocidades da moda.

Os perfís/sombras desta pintura -o negativo de presenças que há tempos foram convertidas em símbolos cotidianos e distantes- homogeinizam a representação e sua potência, tudo pode ter o mesmo valor: um carro e um violino, uma chave e uma ave, um chafariz e uma borboleta. A realidade equaciona-se de forma muito mais arbitrária do que já pensamos. Há algo aliceano nesta pintura ficcional, que desloca a lógica tanto da representação quanto da sua semântica. Como há, no fundo, um tom de natureza morta ressuscitada, de cenas fragmentadas. A pintura “tipográfica” deste pincel a-naturalista sabe disso em sua “escrita”, sejam telas ou caixas. Mais ainda quando as imagens são estampadas como selos ou tatuagens numa superfície eminentemente plana, feita de várias camadas/texturas, mas sem perspectiva alguma, a não ser aquela de ordem mais conceitual ou espiritual. O suporte das “caixas” de Walton Hoffmann revela esse lugar inter-espacial comum na pintura mais contemporânea, adotando superfície e tridimensionalidade ao mesmo tempo, assim como uma divisória suigeneris na composição de seu mundo. Nos quadros este somatório de imagens é diferente: a combinação ainda é mais aleatória, tem outra vinculação imagética: os motivos-figuras aparecem no ar da tela -em um ar de memória ou de nova ficção-, como assim os freqüentes fios que ficam soltos, sem continuação, em aberto. Se as caixas permitem uma ‘representação’ frontal e lateral, superior e inferior, as telas albergam tudo seu imaginário no espaço bidimensional, falseando até o equilíbro aparente. As “esculturas”, e sobretudo os últimos “cubos”, pertencem à outra extensão que permite juntar espaço, volume com pintura e intervenção do público. Daí se deduz que quando esta pintura se apropia de certa objetualidade, seja tanto por dentro como por fora: ela exala coisas, objetos, e se corporeiza às vezes em elemento/suporte objetual. O que é uma resposta cativante, além de um bem humorado paradoxo, no saturado panorama da objetualidade de hoje, cheia de vicios representacionais, muito mais naturalistas do que se quer reconhecer.

No interior deste universo pictórico, as colunas, os prédios e coretos vazios, como elementos arquitetônicos isolados, respiram um certo espírito surrealista à Chirico, sobretudo quando há uma clima de realidade suspensa, uma certa espessura aérea, volátil, uma paisagem que pode ser tanto da memória quanto de um sonho, na qual animais, objetos, figuras, além das pequenas arquiteturas, misturam-se nas diversas composições pictóricas -às vezes tocando-se estranhamente-, sem chegar nunca à já tradicional montagem ou colagem.

É notório que toda a representação figurativa de Walton Hoffmann componha- se de forma isolada, pelo sistema de vincular imagens soltas, qual ícones que querem conversar entre si. Todos os quadros estão com sua representação e conteúdos no ar: como o referencial que se liberou da originária referência. De alguma forma, todos os quadros são pequenos mapa-mundis de bolso, cartografias íntimas cujo lirismo é maior do que a narrativa. Se nesta pintura há uma história, ela está por ser contada, dispensando o discurso, mais próximo da fábula, essa outra narração mais alegórica. Talvez por isso toda esta poética pictórica reclama olhares de vários pontos.

Adolfo Montejo Navas