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A forma do fogo
(filosofia da imagem)

Todos nós somos presos à imagem. Nossos seres são capturáveis pelo estado virtual gerado em torno delas, órbita imaginária que toca a todos nós, a ponto de nos confundirmos com nossas próprias fantasias, não só em sonhos, mas nessa vida vivida em seu solo comum de vigília. Desde muito nos perguntamos, aqui nesse nosso ocidente: como podemos fugir da imagem? Como estamos livres de suas amarras enganosas? Como vivemos a realidade das coisas que nos habitam e nos contornam como mundo? A filosofia deu suas muitas respostas; a arte mergulhou nessa dúvida, sem ver aí os inconsideráveis “problemas”, apenas se entregando ao jogo incerto de uma vida centrada pelos olhos, censores a enxergar pela imaginação, a seu modo, tudo o que vêem.

Estamos mais uma vez diante dessa arte, sua entrega, seu jogo; nossa própria relação com a vida. As obras de Vanderlei Lopes são operantes em sua multiplicidade, trabalham nosso olhar dubitativo com ecos de palavras que não são perguntas e nem certezas. Me recordo quando vi um de seus desenhos, pela vez primeira, em seu aspecto enigmático de técnica estranha, usada para desenhar imagens. No papel estava um objeto escrito, signo posto sobre uma mesa desenhada, como quem busca lugar nesse espaço gráfico do desenho, tentando ajustar-se em um só mundo conciliável, busca de um mesmo ambiente para palavras e imagens. Me lembrei de Beckett, mas logo me fiz esquecer, pois não se trata de ilustrar uma arte com outra. Embora a idéia de um vazio que a linguagem já não preenche diante do isolamento incomunicável dos seres, de um vazio que é exterior e interior à linguagem, desse mundo incomunicável entre seres que já são coisas, subjetividade e objetividade indiferenciáveis; tudo o mais dessa literatura, estivesse ali manifesto. Mas, além de tudo, talvez ao contrário daquela literatura, era uma volta ao mundo dos seres inseparáveis, seres desejos de singularidade em sua nomeação, seres cercados de números e horas, endereços toponimicamente situados, como quem desenha para reter um tempo e espaço para se tornarem inseparáveis, foto instantânea de um “aqui e agora” já perdido.

Lá, ou em trabalhos posteriores, cada cor plasmada no papel é uma constatação desse hiato insuperável que o desenho produz, lacuna diante das linhas querendo capturar em seu contorno uma sensação, impressões, luzes ou um desejo de objeto. As técnicas trazidas pelo artista para o campo da arte, as mais inesperadas, parecem dispositivos para uma linguagem alquimicamente engenhada, de acento romântico, em termos contemporâneos e arcaicos. Esses mistos de fazeres técnicos e estéticos, mesmo ao evocarem Mira ou Beuys, trazem consigo um singular experimento de tempos e atualizações. Em série longa, feita até hoje, em papeis gravados, lemos imagens em dissolução, provisoriamente despertadas de um sonho diurno, através de verdes dourados desencadeados pelo álcool. São efeitos desse solvente espalhado com algodão sobre o carbono para impressão “mimeo-gráfica” (nome de palavras muito sugestivas), efeitos que não se acomodam numa reação estável e proliferam imagens nessa superfície luminosa. Essas obras tem seu tempo de desdobramentos visíveis, para além da duração do olhar que as percorre em decifrações, um tempo físico que se esgotará em breve, como em uma lenta evaporação do desenho. São apenas instantes em que se franqueiam estados visíveis aos nossos olhos, para depois voltarem ao negro dessa noite eterna na qual as imagens ainda não tem corpo e são latentes em sua pureza virtual.

Penso que foi assim, vivendo da experiência insólita descoberta nesses carbonos (alcoolizado por essa beleza reativa e surpreendente), que Vanderlei chegou ao seu desenho com pólvora. Desenhos gravuras. Impressões de fogo, estampas de um calor que modifica o papel e tatua uma granulação de cinzas roídos pela chama. O resultado aparente nos dá conta de um energia provisória, já desaparecida e, mesmo assim, latente em seu rastro fantasmagórico; isso se miramos a literalidade técnica da fatura, ou se visamos alegoricamente a arte. Não foi arbitrário que, ao propor-se escalas e intensidades, passasse para o próprio chão de cimento, pavimento de uma galeria ou outro lugar qualquer, dando-se aos enfrentamentos atuais. E tem sido nesse lugar que sua arte passa a existir com nova força, buscando diversidade de formatos e materiais que a suportem, sem as profissões de fé da coerência de técnicas e partidos. Escolha pelo desenho que não se faz com lápis e papel apenas. Esses desenhos de chão ou papéis, em sua pirotecnia discretamente contundente, mostram as escasseantes imagens receptivas a uma áurea soturna que retorna de seu exílio, e se apega ao desenho residual de imagens impressas pela carbonização dos materiais. Nas silhuetas chamuscadas pela brutal exposição ao fogo, agora silenciadas em sua sombra restante, entrevemos uma sublime antigüidade, ruínas e arqueologias a despertar de seu sonho filosófico. E não se trata de trivialidades pós-modernas, arroladas em argumentos e macetes, mas de encontros fortuitos da arte consigo mesma.

O registro em vídeo apresentado, resultado de uma dessas experiência, é a realização da “gravura” em escala territorial de uma aludida “Árvore”, e é também uma obra-gravação em seus tempos de montagem seqüencial que acompanham as modulações de gestos a desenhar, quadros e fragmentos que se desdobram com certa cegueira nos ritmos da disposição do material, ainda incerto aos olhos do espectador desavisado. É uma transferência do processo do desenho para o ambiente do monitor tele-visivo, uma transferência elíptica que só se completará quando vier a chama a imprimir em sua luminosidade estrema um espaço plano no veículo de registro digital. Em processo de feitura, ao espalhar a pólvora, vão surgindo as nervuras de rastilhos bifurcados sucessivamente, como se fossem raízes ou galhos a saírem de um tronco, que vai se afinando até seus últimos e estreitos filamentos. Tudo se arma aos poucos nesse espaço em que se movimenta o corpo do artista, flagrado em parciais, ou apenas sua mão que trabalha criando a figura. A forma orgânica final em um momento explodirá, e o que até então era só desenho, na discreta ignição de um palito de fósforo, fogo penetrando o quadro da imagem, se acabará no campo estático da tela, destruição criativa *. O fogaréu esgota a manuseada pólvora em espessa fumaça, daí desvela-se aos poucos a impressão final, como um ritual que surge mais artístico do que o próprio gesto que o instaura, uma imagem ainda suspensa na neblina de enxofre que filtra nosso olhar. Esse registro, documento de processo, esse vídeo-arte, está engatado em outro campo de divagações estéticas sobre a imagem, um campo amplamente operado no trabalho de Vanderlei. Uma divagação sobre a superfície das imagens, sobre sua singular superficialidade.

A série de fotos de fissuras em pisos de concreto, irregulares e de colorações variadas, apresentam a feição de um desenhar geológico e sua inscrição detalhada na superfície do mundo. São rachaduras a dar continente a territórios em sedimentação, equilibrando massas e pesos sobre solos instáveis de terraplanagem inconclusas. São a emergência de uma escala natural em um mero detalhe banal de nossa civilização dominante. Essa geografia de áreas fronteiriças dividem e fragmentam um contínuo simbolicamente estático, um plano ideal de estabilidade certa, sobre o qual caminhamos cotidianamente em nossas cidades extensas, um plano que se forma como imagem em nossa percepção anestesiada pelos pés suprimidos de nosso corpo sensorial. São contra imagens de nossos pés-calçados que tocam afásicos o chão irregular e rugoso, sem percebermos seus contornos e seus desenhos reveladores. As fotos, verticalmente incertas em seu ponto de observação, quebram o olhar de horizontes a que nos acostumamos; sua repetição e diferenciação fazem os olhos andarem de uma a outra em busca de sua lógica que nos falta. Estamos diante de uma superfície, é certo, mas o quanto vivemos dessa superficialidade não sabemos ao certo. O que está ali, está também numa outra série exposta em 2003 no Centro Cultural São Paulo, “perturbações”. Nas três fotos que fazem o trabalho vemos movimentos no plano de um espelho d'água, rio ou piscina do qual não se sabe nada mais, onde se propagam ondulações e estrias alterando o nívelamento constante. Pelo enquadramento e angulosidade temos um primeiro aro e alguns respingos visíveis indicando a presença de um objeto que atravessou a superfície reflexa, mas que sumiu do outro lado desse espelho deixando-nos apenas a perturbadora beleza desse desequilíbrio provisório da retícula liquida.

Esse modo de desenhar fotografando as superfícies, e revelando suas lógicas materialmente instáveis, é algo que traz à tona um mundo esquecido, mundo de espessuras renegadas pelo aplainar de nossa modernização certeira. Hine dizia ser a Ironia quem governa o Mundo, ela é sua verdadeira lógica, secretamente está inscrita nos contratempos e nas emergências a cada lapso da racionalidade que se deseja verdadeira. Quando Vanderlei me propôs um diálogo sobre o trabalho que pretendia realizar, ainda não havia acontecido o desastroso acidente, a consumir vidas e a cidade numa cratera, nas engenharias do Metrô. Naquele momento anterior, seu projeto era fazer uma prospecção na Galeria Virgílio escavando paredes e sondando a água que fluiria através de um poço aberto no chão do edifício. Sua intuição não fracassou com a desistência momentânea de um projeto, trabalho que seria impossibilitado por circunstâncias terrivelmente irônicas e por resistências físicas, mas ela está substantivamente devolvida ao espaço mágico da arte e deixa-se ver por todos os lados desse desenho de proporções incalculáveis.

Afonso Luz

* Quando imagino, ao descrever em escritas minhas, me recordo da beleza efêmera que vai sendo destroçada pelos passantes, investidos de sua ascese sublime, sobre aqueles ornamentos de serragem colorida que abrem caminhos à procissão. São alegorias ingênuas a servirem de tapete e pasto para devoções fervorosas. Hoje foram recuperados pelas terríveis cenografias que querem dar ambiente mais ingênuo ainda aos objetos sacros ou a nossa arte da imaginária colonial. Resolvi anotar, embora não tenha convicções de que isso e aquilo tenham algo em comum, pelo simples fato dessa tradição de beleza que reside no destruir o que é cenográfico ter também a sua vigência em nossa cultura ancestral.

 
by artebr.com