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Teresa Viana

A construção da cor é o primeiro ato do pintor e o uso dela para a decorrente construção de superfícies é a tarefa da pintura.
Mesmo em um passado recente quando o estímulo ao olhar ficava em situação secundária diante do apelo conceitual e crítico privilegiado pelas artes plásticas, a produção pictórica nunca desapareceu totalmente do horizonte das artes. Ainda que não ocupando o centro da cena, a pintura dos anos 60 e 70 continuou o caminho que a modernidade lhe havia proposto há mais de um século, ou seja, a exploração das tensões entre cores, formas e texturas. O banimento das narrativas, da semelhança às formas do mundo e das alusões aos aspectos estrangeiros ao universo da própria pintura, sempre ocupou lugar privilegiado na pintura-pesquisa, mesmo quando esta não era o foco de atenção das investigações da arte. Mais do que instrumento para a realização de frações do mundo sensível e materializações de percepções, a pintura tornou-se cada vez mais a sua própria definição ao sublinhar o caráter de seus elementos constitutivos.
Teresa Viana não pertence à geração dos que acreditaram na viabilidade das tintas em tempos de propostas e de meios não tradicionais – a maioria dos quais hoje já contam com território conquistado e bem aceito nas artes plásticas. A tarefa coube à geração de seus professores. Nem integra o grupo dos que se empenham em fazer com que atualidade de um meio tido como tradicional por natureza, fosse conhecida e reconhecida. Ao ingressar na Escola de Artes Visuais do Parque Lage em 85, os jovens artistas da geração 80 tinham tornado suas propostas conhecidas do público.
No final dos anos 80, quando começou a expor seu trabalho, Teresa já tinha diante de si o panorama definido sobre qual seria o papel desempenhado pela pintura dentro da produção artística deste fim de século. Esta asserção de modo algum deprecia sua pesquisa, mas ao contrário, sublinha a clareza de sua proposta: a discussão da cor-matéria.
Seu discurso nào é semelhante ao de Tapiés, que busca peculiaridades dos diferentes materiais e suas possibilidades. Também não ecoa o esforço feito por Claude Viallat algumas décadas atrás, para tornar dúbias tanto as relações entre superfície e suporte, como as entre figura e fundo.
A matéria que escolheu é a tinta a óleo dissolvida em cera derretida e seu suporte a tela convencional esticada sobre o também convencional chassi. Se seus meios reinteram a tradição pictórica, sua pesquisa leva passos adiante em busca da pintura pela definição de si mesma.
Como acima colocado, a pintura de Teresa Viana é o estabelecimento das relações entre matéria e cor, uma indissociavelmente ligada à outra. O uso da encáustica lhe garante a cor vibrante e opaca, densa e maleável. Propõe também a suprefície espessa e de textura generosa. Sem buscar similaridade com as cores do mundo, busca não a luminosidade cromática e etérea, mas a cor concretizada em massa pastosa, que se metamorfoseia em outra, ambas saturadas, sem a contaminação das tonalidades médias. Superfícies irregulares, suas pinturas conservam as marcas de sua gênese, que não chegam a configurar cicatrizes, por serem simultâneas à sua origem e não opostas à pele já criada. Ponto médio entre cor materializada e matéria cromática, suas últimas obras propõem um novo elemento. Estão mais próximos à potência da lava vulcânica brotando da terra do que à melancolia das neblinas retratadas por Turner. Sua materialidade alude ao elemento vidro – areia fundida ao estado de líquido de grande densidade – colorido que conforma o vitral e não à luz intangível por ele filtrada. Sua compreensão da pintura põe diante olhos a palheta usada por Monet. Palheta no sentido estrito do termo, significando a madeira em que dispunha as massas de cores puras, onde o tempo, ou melhor, as suas pinturas (as das telas) iam criando uma outra superfície cromática, matriz geradora das impressões retinianas de Giverny. Palheta como a ferramenta que possibilita a pintura, mas em si traz todos os caracteres da mesma, mas também como cor, a matéria que permite que esta pintura aconteça.

Maria Izabel Branco Ribeiro
Outubro 1998

Texto publicado no folder da exposição Temporada de Projetos em 1998 no Paço das Artes de São Paulo