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Menos é mais

Quem conhece o trabalho de Teresa Viana pode se surpreender. Quando um artista muda, posicionase criticamente em relação ao próprio trabalho. Ao mesmo tempo, valoriza cada passo como mais do que uma experiência isolada, como ponto de inflexão de uma trajetória que podemos chamar de “obra poética”.

Toma as rédeas de seu processo de transformação. Põe em prática na arte o conceito filosófico de “consciência de si”. Ainda falando filosoficamente, a superação não nega a experiência, não significa uma negação do percurso prévio. Pelo contrário, se a poética é coesa e resulta de um compromisso verdadeiro, o momento atual não pode ser considerado na plenitude de sua significação senão por meio da diferença em relação à série dos momentos anteriores. Os novos trabalhos de Teresa Viana comprovam a integridade de seu vínculo com a pintura.

Por incrível que pareça, a eliminação das “massas” – como a artista se refere a seus trabalhos mais conhecidos, feitos com grandes massas de tinta que se elevam – não purifica por completo a pintura: a dimensão material ainda é constitutiva. A limpidez das cores valoriza as formas gestuais. A tinta escorre e se acumula. Vemos na sobreposições a luta em busca da cor e da forma. Tudo isso já estava em jogo nas grandes pinturas maciças. Mas essas massas eram tão impactantes que as características verdadeiramente pictóricas ficavam em segundo plano. O que Teresa Viana propõe agora é uma redução, tanto no sentido quantitativo quanto como sublimação. Quando o excesso é depurado, o essencial aparece. Embora as pinturas maciças fossem profusamente coloridas, as cores se aproximavam pela própria natureza do material acumulado. A forma reduzida permite contrastes mais fortes: menos massa é mais cor.

Segundo a artista, a experiência com imagens digitais foi decisiva para a mudança de rumo. Quase toda informação sobre o mundo é produzida por computador. A pintura eletrônica inverte a relação entre a imagem e a realidade. Em lugar de usar a tecnologia para retocar a realidade, como acontece nos meios de comunicação, a artista produz estranhas imagens que lembram a arte pop psicodélica dos anos 70. O mais notável sobre elas é completa ausência da mão, que é tão fundamental para as pinturas “materiais”. Essas imagens não representam a realidade, portanto não são “virtuais”.

A ausência da mão e da resistência do material, uma necessidade do meio eletrônico, não é camuflada pela artista na aparência de pintura. Não se trata de “pintura virtual” porque as imagens não pretendem ser algo além do que são. Não são realidades potenciais ou possíveis, não aludem a nada além delas. São absolutamente independentes, mais do que poderiam ser a “pintura material”, produzida a partir da matéria do mundo, ou a pintura pop, produzida a partir do mundo das imagens. O caráter incorpóreo das imagens digitais é assumido pela artista, o que valoriza a corporeidade da “pintura material”. Por isso ela organiza as imagens em séries e afirma que elas compõem uma “escrita visual”.

Os dois tipos de trabalhos, o corpóreo e o incorpóreo, o material e o digital, possuem exatamente os mesmos elementos: cores e formas. A principal diferença é que no caso da “pintura material” esses elementos surgem do contato entre a mão e a tela, enquanto o computador não pode ser considerado um meio que possa proporcionar um tal contato, é um meio neutro, de absoluta indiferença. Então as imagens, embora independentes do ponto de vista material, dependem umas das outras para dizer alguma coisa, como as palavras, que isoladas não são nulas, mas vagas e difusas. Nas pinturas o sentido está em ato, nas imagens está em suspensão.

José Bento Ferreira