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Teresa Viana - Desenhos

Branco e vazio o papel invoca e provoca uma ação. Para o artista, como resistir a essa tentação de insuflar forma e movimento a este campo aberto a possibilidades? A possibilidade é o que estimula o gesto a romper a inércia e escorregar, deslizar sobre a superfície do material e fazer existir a linha, o desenho.

A artista institui o fazer neste gesto seminal e vai construindo seu texto; cada linha tem sua trajetória que ao se articular com outras por acúmulo, vai adensando o organismo da composição. As camadas de cor, geralmente monocromáticas, tanto podem estar sob como sobre o desenho. No primeiro casa, as linhas, ao serem esmaecidas pelas pinceladas, criam a impressão de que a trama adentra uma região mais profunda do papel. Os mecanismos de elaboração do trabalho acionam uma dinâmica que organiza a direção do olhar para as áreas condensadas de informação efetuadas no plano, ao mesmo tempo que supomos também “entrar” no desenho. O espaço é preenchido até a exaustão, ou seja, o ponto no qual a aparência é ser.

Desta expressividade resultam dois estados contrários: os trabalhos que envolvem um teor de concentração de traços em conjunção com um ritmo em cadeia produzem inóspidas, desertas, áridas, tecidas com fios secos e duros ao sabor de um ímpeto contundente e que desencadeiam um efeito de estranho isolamento e, aqueles cuja descontinuidade das linhas com uma tensão mais espaçada flutuam como fragmentos soltos na topologia do campo, criando um sentido de paisagens inacessíveis, porém tranquilas e silenciosas.

Juntos na exposição, os desenhos formam um corpo de trabalho no qual a totalidade confirma a consistência do discurso e reafirma as ressonâncias que intimamente ligam e relacionam as unidades-desenhos do construto imagético traçado.

Nancy Betts
1999

Texto publicado no catálogo da exposição de desenhos em 1999 no Escritório de Arte Rosa Barbosa - SP