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A Produção Recente de Teresa Viana ou a Pintura na Corda Bamba

A pintura moderna, na ânsia de explicar seus elementos constitutivos (o plano, a linha, a cor, a matéria), como forma de posicionar a si mesma e a seus agentes perante o mundo, às vezes abdicou de uma função que faz séculos lhe foi atribuída: criar campos de sedução ao olhar, buscar a transcendência através da exploração ou da busca do belo.
Até o advento da modernidade, aqueles seus elementos eram operados no sentido de sumirem do quadro, para que o mundo ali representado – com todos os seus encantos reais e/ ou ideais – assumisse a primazia do encanto. Mas é claro que mesmo submersos sob a aparência do mundo representados por eles estavam ali sustentando, estruturando aquelas ilusões. Por trás do universo místico das paisagens de Caspar David Friedrich, do caráter dramático dos retrados de Rembrandt, e da placidez do universo captado por Chardin, por exemplo, os elementos da linguagem pictórica estavam lá.
Na ânsia da pintura moderna em explicitar o seu funcionamento ou a sua estrutura, houve em alguns casos como que um refluir da representação, ou como que um processo de “desbotamento” do assunto para que a estrutura pictórica pudesse emergir, constituindo-se de fato no principal objetivo da pintura. Muitas vezes nesse processo a função que a pintura possuia de seduzir o espectador pelo olhar também desbotou.
Se Castagneto, quando secou a cor e a exuberância das pinturas de Grimm, de Parreiras e do paisagismo satisfeito do final do século passado ( explicitando a estruturação operativa da sua linguagem pictórica), por um lado elevou a pintura brasileira aos padrões da grande arte internacional da época, por outro, ao contrário de seus colegas, inegavelmente não se preocupou em cativar o espectador através das potencialidades sedutoras da pintura ( o que, em absoluto, não o desqualifica, apenas o retira de uma tendência e o coloca em outra). Como Castagneto, assim parece que agiram Cèzanne, Picasso, Braque,. Mais recentemente, Dubuffet, Pollock, Tápies, Iberê Camargo, os “matéricos” paulistas dos anos 80/90 – vários artistas reinvidicaram operar com os elementos mínimos da linguagem para reafirmar a supremacia da pintura enquando ação no mundo (com tudo o que isso significa), sem a mínima intenção consciente de agradar ao olhar de ninguém.
Porém, dentro dessa mesma preocupação com a explicitação de sua constituição estrutural em detrimento do assunto tradicional e das potencialidades transcendentais da pintura, vários artistas continuaram a perseguir a sedução do olhar do espectador, a busca do prazer não apenas de pintar, mas igualmente de ver pintura e, através desse ato, transcender a realidade do mundo. Monet, Vuillard, Bonnard, Matisse, Mondrian, Ad Reinhard, Guignard, Volpi, Barsotti, entre outros, entenderam que a linguagem pictórica a partir da ênfase de seus elementos próprios, era capaz de seduzir e transcender.
Assim a história da pintura moderna pode ser sintetizada por esse oscilar constante entre obras que abrem à comtemplação e ao envolvimento do espectador, e aqueles que se negam a qualquer relação com o outro, propondo o confronto direto com a sua materialidade, com as marcas de sua constituição.
Foi após o desenvolvimento dessas duas correntes da pintura moderna que surgiu a produção de Teresa Viana.
Logo ao primeiro olhar, sua pintura apresenta um incômodo: como conciliar a profução de cores e tons tão opulentos – sedutores, belos, sensuais – com aquela materialidade tão bruta, áspera, desconfortável? A cor nos remete a um Monet deslumbrado pela cor tropical, enquando as camadas espessas de tinta aludem a uma pintura brutalista repentinamente rediviva. Suas obras parecem caminhar por uma corda bamba, estabelecendo uma concomitância precária entre aquelas duas tendências tão excludentes.
A pintura de Teresa Viana só poderia Ter surgido agora. Após Monet, Matisse, Pollock, Ad Reinhard, Tápies... após toda a trajetória da pintura moderna, só depois dela e de todas as suas possibilidades aparentemente esgotadas (e também após a história toda da pintura) se tornou possível uma artista reconstruir o seu caminho dentro dessa linguagem postulando como linha condutora a confluência (problemática, diga-se deste já) daquelas duas correntes antagônicas.
Não que a pintura da artista produza uma síntese, uma conciliação. Isso seria esvaziar, zerar mesmo toda a tensão da pintura que a antecedeu, transformando sua produção numa espécie de subproduto Kitsch infelizmente tão fácil de se encontrar no circuito de arte, sobretudo após a década passada. A pintura de Teresa Viana apresenta os antagonismos que norteiam a pintura deste século e os enfatiza, não os resolvendo de propósito.
À sedução das cores tropicais que se contorcem criando áreas vibráteis e tendentes ao ilucionismo espacial e à transcendência, a pintora opõe em eterno conflito o corpo matérico que que as constitui, reinvidicando a marca da sua ação “deselegante” sobre o suporte. É como se consciente do perigo da pura evasão que as cores profusas poderiam imprimir em seus trabalhos, a artista revelasse os mecanismos de constituição de cada área de cor, impedindo que a arquitetura das formas conseguidas pelo uso subjetivo e original das cores se transformasse em puro artifício.
Frente às pinturas da artista o espectador vivencia os limites que sempre existiram entre aquelas duas correntes da arte moderna: convidado a transcender o mundo através da opulência e beleza das cores, é impedido pela presença da matéria que constrói as formas.
Uma pintura que critica a si mesma todo o tempo e que, ao fazê-lo, obriga a crítica à história que veio antes dela, que a justifica e que é, em última instância, o seu único tema – talvez esta frase possa sintetizar em definitivo o cerne da produção recente de Teresa Viana.

Tadeu Chiarelli
1996

Texto publicado no folder da exposição individual do Projeto Macunaíma – FUNARTE RJ - 1996
E no livro Arte Internacional Brasileira de Tadeu Chiarelli - 1999