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A Sedução da Cor

A pintura de Teresa Viana seduz de imediato pela cor. Mas há mais que cor nessa pintura. São telas que somam à uma intensa sensorialidade crômica, de rápidas modificações de tons e semitons, uma acumulação volumétrica. É uma pintura que vira relevo e cria um contínuo diálogo, sempre sutil, entre luz e sombra. Conserva, devido ao relevo encorpado pela encáustica, uma afinidade que é apenas aparente com as pinturas que se querem esculturas, sem contudo manter qualquer vínculo com o espaço escultórico. No afloramento da matéria, as cores profusas de Teresa Viana se levantam, se interpenetram, enérgicas e flexíveis, mas aderem sempre ao plano para poderem expressar a permanente ambivalência com que se agitam.
Nas telas mais recentes, a linha entra pela pintura, como a brincar, permeando os adensamentos de cor como se fora sua estrutura geratriz. É uma linha que se transforma em linha-cor, em linha-pintura, formando uma associação simbiótica entre desenho e pintura, já que, é claro, esses delineamentos trazem em si uma instância do desenho, uma intenção do desenho. Chegam mesmo a obrigar as cores a uma busca de maior definição. Mas ao imergirem na tela, essas linhas transmudam-se, transformam-se em pintura. Enunciam um adensamento de ritmos tonais, de luz e sombra, e uma recrudescência das construções internas da pintura, ratificando um poder de evocação sensorial que faz tremular com maior intensidade as radiações cromáticas saturadas e potencializa regiões de luminosidade máxima entremeadas por outras mais opacas, de luz reflexa, especular. Esses encontros - entre estruturas lineares que tendem a formalizar contornos e a matéria pictórica, que detêm essa presunção da linha, - geram um diálogo sempre opositivo, um desacordo, num estranho pacto que demonstra a avidez das investigações efetuadas em torno de uma das questões fundamentais da pintura, ou seja, daquela que instiga à sensorialidade ver e ao olhar imaginar.
Não há, contudo, nessa pintura uma demonstração de virtuosismo. É uma pintura que mostra sua essência na maneira de captar o efêmero, onde as áreas luminosas se interligam às sombras, através de passagens nuançadas por um cromatismo pulsante, engendrado por imensa gama de gradações, que deixa sempre em suspenso os momentos de transição entre as cores. A densidade maleável e sensual das linhas não assegura à pintura uma estrutura espacial, porque as próprias linhas se transformam em fluxos pictóricos. A organização que as linhas procuram oferecer, em busca de uma racionalidade espacial, se contrapõe à latência das cores, à ocupação instável do espaço feita por sobreposições e transparências. É nesse embate de linhas e gestos que se reconfigura a pintura, como luz, cor e movimento.
Carioca radicada há quase uma década em São Paulo, a artista vem desenvolvendo um trabalho que guarda a memória do fazer paciencioso, da concentração atenta aos prismas da paleta, onde a densidade pastosa da pintura não ofusca o colorismo, ao contrário, redime-o a cada instante através da instauração dos detalhamentos cambiantes das cores. Se por um lado se curva à tradição da pintura sobre superfície plana, o óleo sobre a tela, reinterpreta e reinventa esse processo arcaico com um frescor que não se detém na permanência de conflitos entre matéria e cor, entre fundo e plano, entre desenho e pintura, mas que da circulação vibrátil entre essas relações retira uma experimentação reflexiva, onde a obra se abre para a vida e se defronta com o indistinto, mergulhando numa sedução pelo inconciliável.

Stella Teixeira de Barros
Setembro de 1999

Texto publicado no catálogo do Panorama da Arte de Brasileira do Museu de Arte Moderna de São Paulo em 1999