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A Pintora

Depois de inúmeras vezes ter sido decretado o seu fim diante do desinteresse e predominância de novos meios utilizados pelos artistas contemporâneos como o vídeo, a fotografia, o próprio corpo e as ações performáticas e suas formas híbridas, vistos em profusão nas grandes exposições, a pintura mantém o seu lugar de sempre.

Os artistas fiéis à linguagem, chamados de pintores, quase uma categoria à parte no meio artístico, são ligados por certo um grupo que só tem olhos para as novidades, a um certo saudosismo em que o fazer artístico, um corpo a corpo com a pintura, faria parte do passado.

Não é o caso da artista carioca radicada em São Paulo, que em suas últimas experiências pictóricas, sem se prender ao suporte convencional e limitador de uma tela, tem se expandido para grandes dimensões, tomando ares de instalação ao ter a arquitetura dos lugares onde se apresenta como o ideal para sua pintura.

Vibrante, de cores fortes, a pintura de Teresa Viana parece “engolir” o observador com sua massa que agrega hoje, não só as tintas e os pigmentos de cores intensas levados às telas com gestos igualmente intensos e vigorosos, mas também, outros materiais estranhos para o que entendemos como uma pintura tradicional. Esta maneira de pintar da artista, com gestos e movimentos que extrapolam as dimensões do seu corpo, lembram uma mistura sinestésica entre células rítmicas e improvisadas de um jazz com as cores que cobrem a superfície dos planos em que atua.

A artista tem incorporado materiais que encontra nos lugares onde expõe. São restos de papelão, madeira e materiais plásticos descartados. Este fazer é que dá um novo sentido ao seu processo artístico. São paredes ou até mesmo muros, os espaços utilizados para sua pintura que escapa da bidimensionalidade planificadora, característica da linguagem. A cor que é estática e excita a visão, é aqui ligada ao espaço e ao tempo que passam a fazer parte do processo artístico, como foi o ambiente para as esculturas e instalações minimalistas. Não mais apenas como anteparo, a parede é incorporada no trabalho em toda sua extensão. Obrigando, portanto, que o observador também se desloque no espaço-tempo ocupado por suas pinturas.

A sua primeira experiência “espacial” foi nas Oficinas Culturais Oswald Andrade, em 2000, resultado de uma residência artística. Em 2002 ocupou uma longa parede no Centro Universitário Maria Antônia, ligado a Universidade de São Paulo, utilizando-se ainda de entretela e pigmentos para conseguir os gestos volumosos de cores. Em 2003, pedi a artista que pensasse as possibilidades de sua pintura ser levada a uma parede de grandes dimensões em uma casa noturna que desejava ousar na sua proposta ao incorporar arte contemporânea nos seus ambientes. Neste caso, resultou em uma pintura “pesada” feita de cimento, arame e pigmentos muito de acordo com atmosfera de pouca luz que se criava naquele lugar. A massa e os volumes materializavam-se nas cores como se estivessem num processo de desintegração. Era um lugar desconhecido para suas pinturas. Depois foi a “pintura-instalação” apresentada no Paço das Artes, em São Paulo, em 2004. Ali cores e materiais adiquiriam uma certa leveza no ambiente mais requintado e iluminado daquele museu. Desdobrou-se no Paço das Artes, talvez, a melhor de suas realizações nessas dimensões. Em 2005, ocupou um muro de uma biblioteca pública no Pari agregando diversos materias, inclusive galhos e folhas trazendo uma nova materialidade para suas pinturas e radicalizando na sua apresentação ao trazê-la para o espaço aberto da rua. Finalmente, em Buenos Aires, em 2006, como se estivesse em uma nova fase destes trabalhos, a pintura portenha possuía uma leveza incomum mesmo que mantendo os traços das anteriores. Renovava assim, a sua própria “maneira” de pintar.

Teresa Viana dá a pintura um novo sentindo em um momento que a mesmice parece abater os processos artísticos atuais. Com uma diversidade imensa de linguagens e materiais, o que se vê nas grandes exposições passa a ser monocórdico. A artista faz o caminho contrário. Fiel a pintura, parece querer pintar o mundo cinza a nossa volta.

Ricardo Resende

Texto publicado no catálogo do Prêmio Projéteis Funarte de Arte Contemporânea 2007