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Um pássaro passa, penso.

Um corpo voa. Nesse voo ele assinala tanto a natureza quanto a linguagem. Afinal, ele também voa porque agora sustenta Paul Valéry – é preciso ser leve como um pássaro, não como uma pluma. A natureza vive na linguagem, se perde em seus desvãos, porque o voo é ainda um convite à distração, desarma o corpo atento como se os olhos de quem pensa vazassem aos confins do humano. O voo mobiliza o pensamento para longe, deixando o corpo penso. Penso, pender, eis o pensamento que suspende o corpo.

“Pasó un Pájaro, lo seguí” é o título que Thereza Salazar escolheu para a série que articula um outro domínio, o bosque sem logos. Mesmo assim, as imagens de Thereza são pensas, pendem. Equilibram-se em cinza, em preto.

Sua escolha sugere um momento de abandono do corpo, de seu ypse, lapsos em que a fortaleza – o corpo – fica aberta, sujeita a sustos, acidentes, ou ainda entregue ao acaso, e por instantes é presa. “Enquanto penso viro presa”, uma hipótese. Uma voz imaginária. Seguir um pássaro, desviar o pensamento em uma ave seria errar sem corpo, projetar-se no animal que vai longe. E no ataque ser além da presa: surpresa.

O desafio: até onde é o fim do pensamento. Estaria em um bosque? Estaria em um passeio noturno? Seguimos os pássaros de Thereza. Ficamos pensos. Suas pranchas sugerem um passeio mudo. Agora no bosque sentimos animais invisíveis. Eles rastejam. Voam. De onde vieram? O corpo da serpente é ainda um corpo do pensar (Paul Valéry, Augusto de Campos), embora o pássaro o leve para longe.

Thereza Salazar nos põe em conflito. Dentro deste conflito existiria o recorrer? Brevemente um deles: Giorgio Agamben nos fala de um fim do pensamento. Tentamos reconciliar pensamento e surpresa? Susto, ataque. Eles estão perto: se lagartos ou ouriços, tordos ou serpentes, não sabemos. Quando pensamos, ocorre o mesmo. Não tem importância o caminho da palavra que percorremos, mas a confusa agitação que sentimos ao redor, como a de um animal em fuga ou a de qualquer coisa que, de repente, acorda com os barulhos dos passos.

Diante de tais barulhos, o corpo volta para um estado de atenção. Agora situado perante as imagens do choque do pensamento. Um choque impresso em preto, em cinza. O pássaro, assim como o pensamento, ora voa, ora pousa. Está vivo, está morto. Devora. É devorado. Thereza nos apresenta outros lugares. Essa é a impressão. Esse é o corte. O simples gesto da evocação de tempos desencontrados: concentrados, desconcentrados. Atentos. Até que um pássaro passe.

Eduardo Jorge

 
 
by artebr.com