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Na corda bamba

Os desenhos de Thiago Honório renunciam a qualquer acomodação pretensiosa, subvertendo o gesto fácil e disposição adequada. Sobre a dúvida, no limiar da persistência da gravidade, parece que tudo está para desabar... Como um homem que anda na corda bamba, seu maior virtuosismo está na superação da queda que está prestes a acontecer. Com uma calma voraz, seu corpo tenta adaptar seu peso a cada novo passo, porque está lidando com os mínimos pontos de apoio.

Thiago Honório se posiciona frente ao silêncio do branco, desenhando não apenas no papel, mas com o papel, tratando o suporte como campo de ação. Admite claramente a potencialidade intrínseca de um campo visual: a problematização do espaço e o reconhecimento da planaridade. Com uma interrupção na continuidade de espaço, cria-se uma outra contingência espacial, que apesar de expansiva, só cabe no campo específico determinado pelo desenho.

Os desenhos trazem à tona uma conturbação silenciosa. Desajeitadamente, o traço firma, e de tão firme não consegue ser reto, acarretando uma tensão contida como um terremoto de sutil percepção. Decisões sobre incertezas, a aparente maciez do traço não se conforma à força empregada e nem ao embate com as linhas mais espessas de bastão de óleo. A tentativa de construir o ar, ao estruturar o invisível e enfrentar o tão silencioso branco, lembra a coragem do homem da corda bamba sobre um fio quase insustentável.

Tatiana Blass, maio de 2001

[1] Termo utilizado por Paulo Venancio Filho no texto Influência Poética, do catálogo da exposição Influência Poética: Dez dezenhistas contemporâneos, Amilcar de Castro e Mira Schendel, Paço Imperial, RJ, 1996.