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Apesar da adversidade

Manter-se em pé mesmo que instavelmente escorado; ser leve sem renegar a densidade intrínseca dos corpos; insistir na verticalidade do peso mesmo que ameaçada constantemente pela gravidade; ser agressivo sem deixar de seduzir. São essas algumas das situações-limite trazidas à tona pela nova inserção espacial de Thiago Honório. Equilibrando-se no fio da navalha, o trabalho Plano de Saúde [4X4] – Assento do cocheiro joga na nossa cara o estado de precariedade física, psicológica e social do corpo em sua situação compulsória de estar no mundo, sem, contudo, esquivar-se do desafio de driblar o impasse. Ao contrário, sua força poética nasce precisamente do movimento simultâneo de atiçamento permanente dessa condição embaraçosa e sua solução movediça.

Tomando como ponto de partida a saleta espacialmente problemática de 4,30 X 3,78m, a intervenção desestabiliza a aparente segurança e caráter acolhedor do espaço, transformando o que parecia íntimo e conhecido, num lugar desconfortável e ameaçador. Com a simples colocação de uma chapa de aço de tamanho proporcional ao da sala (3,50 X 3,60m), sustentada por uma haste do mesmo material em posição vertical inclinada o artista potencializa um deslocamento percebido em diversas esferas: a existência desproporcional da pesada “escultura” enquanto “obra de arte” neste reduzido espaço expositivo; a luta pessoal permanente de nosso corpo com a gravidade; a realidade deslocada da sala em relação às outras salas de exposição do Ceuma; e, por que não dizer, a latente violência a qual estamos expostos enquanto sujeitos agentes num espaço coletivo.
Mas a ocupação do espaço a partir de seus limites físicos e estruturais – pois vale lembrar que para a sustentação de quase uma tonelada de massa foi imprescindível a utilização da única viga existente na sala – nunca se dá como uma via de mão única: se por um lado o equilíbrio aparentemente instável de um corpo tão pesado torna-se ameaçador, por outro, a verticalidade da chapa sinaliza a amplitude deste espaço reduzido.

Encontrar um meio-termo, no qual o corpo mantém sua autonomia sem prescindir do espaço que o acolhe, o ponto exato da convivência de restrição e liberdade, parece ser uma questão presente desde a série de desenhos apresentados em 2001 no Centro Cultural São Paulo. Essa relação dúbia aparece pela primeira vez expandida para um espaço físico em Saltando de banda (intervenção na Galeria 10,20 X 3,60 realizada em mar-abr de 2003). Novamente, como exercício de coerência e criatividade, Thiago Honório perscruta esses limites aceitando como desafio a ocupação de um espaço pouco ideal. Neste sentido, Assento do cocheiro sinaliza mais uma vez para a aventura que é nosso estado no mundo.

Taisa Palhares