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Quase líquido

O líquido se comporta de um modo bastante particular, ele não mantém uma forma estática e definida, mas está sempre pronto para se modificar. O líquido pode se acomodar no espaço e se adequar a qualquer recipiente, ganhando uma forma sempre provisória. O estado líquido pressupõe a inconstância, a mobilidade e a fluidez. É o estado mais próximo do fluxo do tempo e de tudo o que é instantâneo e passageiro como o próprio tempo.

O momento atual, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, seria caracterizado pela modernidade líquida. Uma era em que o poder é exercido de modo evasivo, escorregadio e flexível. Os celulares, a internet sem fio e todo o mundo portátil e leve associado aos equipamentos de comunicação estão entre os responsáveis pela aceleração vertiginosa do tempo.

Entretanto, apesar desse mundo predominantemente fluído e veloz a situação, pelo menos no Brasil, não é propriamente a de uma modernidade líquida. Talvez estejamos numa era quase líquida, em que dada as contradições de nosso processo de modernização o quase deve ser ressaltado.

Basta olhar para o Rio Tietê na altura da Marginal. Um Rio que possui uma consistência gelatinosa e que a matéria orgânica acumulada em seu fundo atrapalha seu fluxo. A densidade atual do rio talvez seja um modo de caracterizar parte do mundo contemporâneo e de nosso atraso, um símbolo de nosso estágio de modernização. Uma modernidade contraditória, que não é plenamente líquida, que não engata e que só às duras penas se realiza. Ao mesmo tempo em que a cidade de São Paulo possui um dos piores trânsitos do mundo, e se locomover nela exige tempo, em São Paulo há uma grande circulação de motos e um dos mais intensos tráfegos de helicópteros do planeta.

Tanto a relação do rio com o fluxo temporal, como o estado quase líquido, são pontos de partida para a exposição. Não à-toa há na mostra trabalhos realizados em esgotos, córregos e no próprio Tietê; outros que remetem ao rio como metáfora do tempo, e há ainda trabalhos que aludem indiretamente ao tema da mostra.

O estado quase liquido é parte de nosso processo particular de modernização que não conseguiu dissolver as sólidas e desiguais estruturas sociais e, com isso, renovar a ordem instituída. As estruturas que comandavam o mundo do passado ainda se mantêm e o ideal de um país moderno, civilizado e desenvolvido não foi atingido. Se o poder se assenta justamente nesse estado de fluidez, na aparência de liberdade, isso significa que é quase impossível transformá-lo plenamente, afinal as estruturas se liquefizeram, são maleáveis e escorregadias, ou quase.

Cauê Alves