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Revista Não lugar entrevista Sofia Borges - www.naolugar.com.br

1. O cinema é forte influência na sua obra?
É difícil cercar as influências de um trabalho. Sou constantemente influenciada por diversas linguagens e o cinema definitivamente é uma delas, mas não é a única. Quando comecei a fotografar me interessava investigar como cada meio (cinema, televisão, pintura, fotografia e literatura) interferia na concepção e no significado de uma imagem. E como cada linguagem se comportaria em relação a construção de um mesmo conceito, por exemplo o conceito de tempo, de narrativa, de espaço.

Aos poucos essas indagações foram sendo absorvidas pelo meu trabalho e de certa maneira foram elas que me levaram a experimentar, na fotografia digital, outras maneiras de construir o assunto. E é daí que surge a relação primordial do meu trabalho com o cinema, a pintura e, de forma mais pontual, com a literatura. Me interessava sobretudo a maneira como o tempo e a narrativa eram construídos nessas outras linguagens, e como a fotografia poderia fazer uso disso. A partir da minha primeira série de retratos, em 2007, comecei construir imagens fotográficas cujas relações de luz, cor e foco entre suas partes obedecessem mais às intenções internas ao trabalho do que ao procedimento automático do aparelho fotográfico. O que antes era um conjunto de fatores que levavam a construção de um só valor - a imagem, a circunstancia fotográfica - então se corrompia em favor da construção de uma outra lógica para a fotografia.

Com isso, a foto ganhava uma narrativa mais cíclica que linear, a autonomia de cada objeto em relação aos demais fazia com que o observador se voltasse constantemente a eles e não mais à "história" da foto. E é nesse aspecto que acho que minhas fotografias se afastam de um still de cinema, pois ao contrário dos stills, elas não sugerem um antes e depois, elas parecem mais suspensas no tempo do que retiradas de um continuum.

2. O clima dos filmes de David Lynch parece ser referencia em suas fotografias. Você acha que essa comparação se aplica a todas as imagens?
O David Lynch é um diretor que eu gosto particularmente, ele me interessa pela maneira que constrói a narrativa de seus filmes pautada por um tempo psicológico. E o que é mais interessante é que ele leva em conta não só o tempo psicológico dos personagens mas também o do espectador. Acho que em parte sempre me atentei a isso em seus filmes pois também no meu trabalho há o intuito de construir um tempo dilatado, que seja mais psicológico que "factual". Mas não considero que ele foi, nem que seja hoje em dia, uma especial referencia para mim.

De todos os meus trabalhos, o único que faz alguma referência ao Lynch é uma fotografia na qual há dois homens dentro de um carro (na verdade os dois homens, como a maioria das pessoas nas minhas imagens, são um mesmo sujeito repetido em dois lugares da fotografia). A escolha da posição dos personagens nessa foto foi influenciada por uma cena do primeiro episódio do Twin Peaks, na qual o assassino aparece nos sonhos de uma personagem, escondido atrás de uma cama. É uma cena impressionante.

3. Tens antes da fotografia experiência com a pintura?
Tive algum contato com pintura durante a faculdade, mas nunca me dediquei seriamente a sua prática. Até o momento minha experiência mais significativa com as telas continuam sendo como observadora.

4. "Queria imagens escorregadias, afrouxadas, destituir a minha foto de uma relação imediata e colada com o real", resumiste certa vez. Ainda queres essas imagens?
Esses termos foram usados para descrever algo que eu buscava numa fotografia. Há dois anos atrás, quando o escrevi, estava interessava por imagens cuja relação prescindisse de conceitos como "recorte do real", "instante fugidio", "momento decisivo", etc. Contudo, negar associações tão familiares à fotografia não era o motivo da minha pesquisa, mas a conseqüência dos meus objetivos com ela. Era necessário distanciar a imagem fotográfica da idéia de uma “imagem natural”, para que o “real” na fotografia pudesse aparecer mais enquanto objeto, enquanto tema, do que somente como linguagem. Sempre me interessou o artifício (ou função alegórica da imagem) que surge com afastamento entre a fotografia e seu referente. É através desses "afastamentos" em que, a meu ver, a fotografia "amolecia", criava fissuras, voltava-se a uma reflexão mais tautológica que conclusiva.

Dessa forma, pode-se dizer que continuo buscando por imagens "escorregadias, afrouxadas", a diferença é que a natureza dos trabalhos que estou produzindo hoje é outra; e o procedimento para chegar até essas imagens se diversificou muito. Não há mais como eu definir um "tema" para o que eu estou fazendo, tampouco há uma "técnica geral" para obtê-las. Atualmente o procedimento técnico pelo qual submeto minhas fotos dependem muito da imagem em questão, algumas são fotos construídas, outras instantâneas, outras apropriadas… o que as liga não é mais a técnica, mas a pertinência do conteúdo para a continuidade da minha pesquisa.

5. Fale sobre seu novo trabalho.
O meu último trabalho se trata de um díptico: são duas fotografias impressas em papel algodão e podem ser vistas até março no Centro Cultural São Paulo. É um trabalho muito recente, finalizei-o há cerca de duas semanas e ainda há coisas a seu respeito que estou procurando entender. Algo que tem me interessado bastante nessas imagens é que quando postas juntas elas esclarecem pontos importantes para a interpretação das mesmas. Usando os termos abordados acima… uma imagem trabalha a favor do "amolecimento" da outra. Assim como nas minhas outras séries, as partes de cada imagem foram construídas na tentativa de voltar a narrativa para dentro da imagem. Contudo, em cada uma dessas fotografias isso acontece de maneira muito peculiar (e de certa maneira antagônica)… se tratam de imagens de natureza distintas, mas complementares. Fiz delas um díptico justamente porque uma se comportaria de maneira destrutiva (e positiva) em relação a outra. Se apresentadas isoladamente certamente tenderiam a uma simplificação ou contextualização, seriam mais facilmente "resolvidas". Mas juntas não há identidade entre as duas, tudo o que uma constrói a outra frustra. São imagens escorregadias, não há solução perfeita para elas.

 
by artebr.com