Sofia Borges: Minha trajetória tem como ponto de partida a vinda para São Paulo, cheguei aqui com 18 anos sem saber bem o que era arte contemporânea e descobri visitando as exposições. Fiquei muito entusiasmada com a idéia de existir uma carreira onde se pudesse fazer coisas daquele tipo. No ano seguinte entrei no curso de Artes Plásticas da USP e foi lá onde desenvolvi um senso crítico e comecei a fazer meus primeiros trabalhos. Durante os cinco anos que fiquei na USP a constante troca com os professores e colegas foi mto importante, mas principalmente minha produção em desenho e fotografia acontecia paralelamente às aulas e aos trabalhos de fim de semestre. Acho que isso foi bem importante pois criei uma certa autonomia em relação ao curso… já no primeiro ano de faculdade comecei a participar de salões e no terceiro ano ganhei meu primeiro prêmio. Eu sempre tive uma produção bastante intensa, ainda estava na faculdade quando fiz minha primeira individual (no Centro Universitário Maria Antônia) e tmb quando entrei na Galeria Virgílio.
F.I.C: Você utiliza bastante manipulação digital em seu trabalho. De que forma você vê a relação entre arte e tecnologia, hoje em dia?
S.B.: Arte e tecnologia é um conceito um pouco confuso na minha opinião. Pois ele é usado para se referir a acontecimentos atuais quando na verdade essa relação é tão antiga quanto o surgimento da pintura ou da escultura. A tecnologia sempre transforma a técnica e não acho necessário um destaque para isso nos dias de hoje. Na minha opinião a tentativa de segmentar os “tipos” de arte muitas vezes acaba por criar distâncias desnecessárias, ainda mais quando se trata de uma categorização a partir de uma técnica aplicada e não de um conceito ou período. E apesar do surgimento da internet ou da própria fotografia terem causado mudanças sem precedentes na nossa sociedade, é preciso lembrar que a tinta a óleo ou a técnica da fundição também já foram revoluções tecnológicas e continuam indispensáveis para a arte.
F.I.C: A fotografia costuma ter uma conotação de registro do real, mas não é isto que se vê nas suas obras. Que elementos você acredita que conferem esta condição ao seu trabalho?
S.B.: A capacidade da fotografia em remeter ao real é algo fascinante para mim. Mas mais do que um registro fiel da realidade me interesso pela maneira como ela modifica o significado daquilo que registra. A meu ver, na passagem de realidade para registro fotográfico acontece um procedimento interessante… é como se a realidade registrada decantasse; tornando-se um objeto que perde aos poucos o lastro com seu sentido original, mas nunca com a sua factualidade. Nos meus trabalhos muitas vezes procuro obter esse “decantamento”, e talvez seja isso o que possibilita que o “real” nas minhas fotografias possam aparecer mais enquanto objeto, enquanto tema, do que somente como linguagem.
F.I.C: Você chega a fazer mais de uma dezena de fotos de uma mesma paisagem ou ambiente para depois juntá-las na construção de uma única imagem. Como você chegou a este processo, e por que? Para você, quanto do trabalho está no processo e quanto está no resultado, na imagem final?
S.B.: Comecei a realizar esses processos na série de retratos que fiz em 2007. Com uma câmera digital, passei a fotografar uma mesma cena diversas vezes, sempre com tempos de exposição longos, alterando a cada captura os focos, as intensidades de luz, as temperaturas de cor, os tempos, etc. O objetivo era obter um conjunto variável de uma mesma cena para depois, no computador, construir uma só imagem resultante das partes que mais me interessavam em cada uma. Tal procedimento me permitia construir relações internas de luz, cor e foco que obedeciam muito mais ao intuito interno do trabalho do que à captação automática da câmera. Buscava com isso construir fotografias nas quais todos os assuntos (móveis, objetos, figura humana, luz, espaço, etc) tivessem a mesma força narrativa mas que, enquanto conjunto, não construíssem nenhuma narrativa clara.
Para esses trabalhos onde eu construo o assunto e mesmo para os trabalhos onde não há nenhum tipo de manipulação ou transformação da imagem acredito ser o processo que determina o trabalho. Mesmo se tratando, por exemplo, de uma fotografia antiga que me aproprio, o que a torna coerente para a minha pesquisa é a maneira como ela consegue trazer as mesmas questões de forma totalmente diversa. Imagem final e processo na minha opinião são faces da mesma moeda, está tudo lá, numa única coisa.
F.I.C: Por que trabalhar com a ideia de não-acontecimento, de hiato entre um frame e outro, nas cenas que você retrata?
S.B.: Ao observarmos uma fotografia que retrata um situação, uma cena, é quase automático situar a imagem que vemos entre um antes e um depois. Apesar disso por muito tempo procurei construir imagens nas quais a narrativa estivesse indisposta a esse continuum. Foi tentando engordá-la, dilatá-la, que comecei realizar esses procedimentos de juntar várias imagens em uma só. De certa maneira eu queria um tempo fotográfico e não um instante fotográfico. E com isso fui tentando internalizar a narrativa, fazendo com que cada coisa remetesse à própria imagem e não ao que aconteceu antes ou depois. Na época costumava dizer que procurava por uma imagem mole, frouxa, cujos assuntos ficassem sempre sem contorno, sem precisão. Acho que até hoje procuro por imagens dessa natureza.
F.I.C: Você modifica as temperaturas de cor e também elementos de luz das imagens. Isto acontece durante o ato de fotografar ou depois, já na edição digital? Por que fazer estas manipulações?
S.B.: A modificação da temperatura de cor ocorre sempre depois, no computador, já a da luz acontece nos dois momentos. Faço essas alterações porque cada parte da foto me interessa de maneira específica.
F.I.C: Na conversa registrada no material da exposição Sedimentos, Rafael Carneiro e Wallace Masuko fazem um paralelo de suas fotos com a literatura, mas também a relação com o cinema fica bastante evidente e você já falou que David Lynch foi uma grande influência nestes trabalhos. Tudo isso demonstra que há a ideia de narrativa nas imagens. Como você pensa isto, tanto no momento de fotografar e quanto no de construir a imagem?
S.B.: Há sim a idéia de narrativa, e acho que durante todo o processo estou sempre muito mais voltada para a maneira como a narrativa é construída no cinema, na literatura e até na pintura do que exatamente na fotografia. Me interessa muito observar, por exemplo, como o cinema ou a literatura constróem a idéia de tempo e de narrativa, sempre de maneira muito mais flúida e oscilante que a fotografia. Também me interessa observar como a imagem é construída na pintura, como cada elemento se comporta em relação ao outro, eles tem uma autonomia e ao mesmo tempo uma coerência entre si.
F.I.C: Na sua primeira série de fotografias, você era também a fotografada, sozinha ou junto de mais alguns personagens. Por que você mudou deste formato para as paisagens? Que transformação aconteceu com os personagens neste processo?
S.B.: Num primeiro momento, fazer os auto-retratos era algo minimamente confuso. Havia um receio de que as fotos se tratassem de um exercício cujo êxito só eu conseguiria fruir; não sabia se aquilo faria sentido a qualquer outra pessoa, e ao constatar que fazia, me perguntava por que então não me substituir e experimentar o outro como sujeito. Havia algo de desafiador nos auto-retratos, o que me levava constantemente a aferir a sua imprescindibilidade. Acho que desde então meu trabalho vem acontecendo nessa mesma dinâmica interna de tese e antítese. Cada trabalho determina para mim a necessidade de me aver com o seu oposto, de pensar em como descontruir o que eu construi, ou em como construir a mesma coisa de maneira diversa. Talvez eu não esteja conseguindo ser muito clara mas o que quero dizer é que sinto que nos últimos anos a minha pesquisa vem desdobrando sobre ela própria, ao contrário do que eu imaginava meu trabalho não vem seguindo uma progressão muito linear... ele é a todo momento quebrado por mim, estou sempre procurando maneiras de negar as afirmativas que encontrei. Recentemente, a crítica de arte Luisa Duarte, que acompanhou minha produção durante todo o ano de 2009, escreveu um texto sobre meu trabalho e o título foi “A fotografia de Sofia Borges ou a experiência de se equilibrar sobre a água”.
F.I.C: Na reportagem da Folha de São Paulo, João Bandeira e Paulo Sergio Duarte traçam uma relação entre suas fotografias e a pintura. Você também identifica este lado pictórico em seu trabalho?
S.B.: Com certeza existe esse lado, mas como a própria pergunta já deu a entender… é só um dos lados, existem muitos outros.
F.I.C: Quais são os seus próximos projetos? No que você está trabalhando no momento?
S.B.: Na minha última individual, no CCSP, eu mostrei um trabalho denominado Ambas que se tratava de duas fotografias em grande formato expostas uma em frente a outra numa sala inteira pintada de cinza. Assim como nas séries anteriores, as partes de cada uma dessas imagens foram construídas na tentativa de criar narrativas internas para a fotografia. Contudo, em cada uma dessas fotos isso acontecia de maneira muito peculiar, fiz delas um díptico justamente porque uma se comportaria de maneira destrutiva (e positiva) em relação a outra. Desde essa exposição, onde eu propus um assunto que mais tinha a ver com a relação entre duas imagens do que com uma fotografia isolada, cada vez mais meu trabalho tem se desenvolvido a partir das relações entre as fotografias.
Atualmente tenho me interessado por fotos de naturezas as mais diversas que, com estratégias distintas, conseguem trazer questões pertinentes ao meu trabalho. É difícl definir um "tema" para o que eu estou fazendo, tampouco há uma "técnica geral" para obtê-las. O procedimento técnico pelo qual submeto minhas fotos depende da imagem em questão, algumas são fotos construídas, outras instantâneas, outras apropriadas e muitas são fragmentos (ou re-interpretações) de pinturas, filmes e fotos antigas.
Esses trabalhos serão mostrados no primeiro semestre de 2011, estou preparando uma individual para a minha galeria no Rio e uma para a de São Paulo.
Fonte: Entrevista originalmente publicada no site da Fundação Iberê Camargo em 30/07/2010
www.iberecamargo.org.br