Em tempos nos quais se faz o elogio incessante do funcionamento, da correção, do resultado; em uma época na qual o capitalismo avançou de tal modo a colonizar a subjetividade e o inconsciente, "espaços" que antes pareciam protegidos de suas investidas; em um mundo assim, a cultura e a arte (âmbito que hoje se misturam) parecem também, muitas vezes, colonizadas. O que quero dizer com isso? Quero dizer que a capacidade de crítica, de se criar a distância necessária para gerar um ruído diante do mundo ao redor, se torna cada vez mais difícil. Como se acontecimentos que instaurem diferença, exterioridade, estivessem cada vez mais excassos.
Porém, "mais escasso" não quer dizer "não haver mais". Ou seja, hoje existem sim manifestações que, com estratégias distintas, investigam o mundo e nos alcançam com a força de uma desestabilização, como que modesta, mesmo que momentânea. As fotos de Sofia Borges tem essa capacidade.
Seus trabalhos surgem como uma espécie de problema. Trata-se de uma fotografia que não busca uma narrativa fechada. Se muitas vezes suas imagens são relacionadas ao cinema, elas, entretanto, possuem uma suspensão que dificulta determinar que se trate ali de um instante do qual é possível derivar um "antes" e um "depois". A artista parece construir , isto sim, um tempo suspenso, colocando em obra uma narrativa entrópica, não linear. Não temos nem o tempo congelado, próprio à fotografia, nem a linearidade que faria de cada imagem um still de cinema. Trata-se, antes, de construções1 que desmentem o tempo da fotografia, mas também não casam com a narrativa cinematográfica, fazendo com que a aproximação com a literatura seja, talvez, mais ajustada, a partir do momento em que ela solicita a imaginação do público para preencher as lacunas, seja do texto literário ou, transportando a situação para o que nos interessa, da imagem fotográfica.
Lembro-me de uma foto de 2007, na qual a própria artista surgia em uma cozinha, segurando em uma das mãos uma garrafa cheia de leite e, na outra, o que parecia ser um pote de açúcar. O olhar petrificado que parecia mirar o nada esvaziava de sentido a garrafa, o leite, o pote de açúcar, o aparato da cozinha. Aquele tempo e lugar não estavam conectados com a pessoa que os habitava.
Uma espécie de autismo atravessava a imagem.
Tal modo de proceder, no qual uma só fotografia traz em si sua própria desarticulação, comparece na exposição do CCSP, na qual a artista exibiu duas fotos em grande formato. Em uma das imagens, vê-se um espaço caótico, uma luz estourada turva o campo imagético. Ao fundo, abre-se uma porta cujo destino é ignorado; uma caixa está aberta; vê-se uma pintura na parede; uma bolsa verde jogada ao chão. Os elementos dentro de uma mesma imagem não conversam entre si. Aquela "cena", apesar de habitada por vários elementos, quase não deixa pistas sobre sua significação.
Essa desconexão irá se acentuar ao olharmos para a outra foto que forma o seu "par" na exposição. Preto e branco, exibe uma paisagem com céu fechado, dois grandes muros, um formado por vegetação, outro por concreto rachado. Entre os dois existe o que seria a estrada para algum lugar.. No canto esquerdo da imagem vemos duas crianças na eminência de uma ação. A estranheza dessa imagem intensifica-se ainda mais quando posta frente à frente com a anterior. Trata-se de um diálogo que não flui, um par sem identidade, uma foto não ajuda a esclarecer a outra.
Lidar com esse estado de frustração das expectativas, fazer a escolha por caminhar sobre um solo escorregadio, tal como equilibrar-se sobre a água, e nos apresentar uma exposição que poderia ser caracterizada como "manca"2, é o que faz com que a obra de Sofia Borges tenha a qualidade da desestabilização que acossa e faz pensar, escassa nos dias de hoje. De nada adianta irmos até as suas imagens com a voracidade de tudo decifrar. Algo sempre nos escapa, e talvez por isso mesmo, como na lógica do desejo, sempre voltamos a elas.
Luisa Duarte
1 Sofia Borges utiliza recursos como montagens digitais, tempos diferentes de exposição, duplicação de imagens, etc. Entretanto, não nos deparamos com uma fotografia evidentemente manipulada, com “cara de photoshop”. A artista consegue uma “naturalidade construída”, mesmo exibindo uma fotografia permeada por intervenções.
2 O termo foi usado pelo artista Rafael Carneiro em uma conversa publicada por ocasião da exposição da artista, nomeada Sedimentos, na Galeria Virgílio, em 2009. Segundo Carneiro, “é engraçado como suas fotos se desarticulam, é isso que eu acho que tem mais semelhança com a literatura, é como se os elementos estivessem dispostos e continuassem sem perna, sem braço. Porque a literatura é essa coisa monstruosa, você vive ela, lê ela, passa a ficar dentro dela, mas ela é totalmente manca, totalmente cega, totalmente torta”.