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O mistério do muro

Se há algo que define a existência urbana é o muro. Muro que se apresenta camuflado de várias formas: parede, porta, portão, divisória de escritório, vidro fumê de carro e toda sorte de anteparo que isola as pessoas, as coisas, os saberes, as experiências. Paulo D’Alessandro faz do fotograma metáfora do muro. Subverte sua lógica. Dissolve o muro ao transgredir a separação entre fotogramas do negativo. O procedimento resulta em um encadeamento de imagens sobrepostas que, ao final do filme fotográfico, constituem um único negativo.

O objeto fotografado, por coerência e honestidade poética, são essas estruturas urbanas em suspensão. Os muros e outros compartimentos da vida contemporânea são fixados em estágios intermediários: o condomínio sendo construído, as ruínas sendo restauradas, tijolos e outros materiais de construção empilhados (muros em potência), a arquitetura em constante processo de autofagia. Mesmo na série de fotos dos anos 1990, esse estado de suspensão, esse entremeio, era evidente: prédios apareciam fragmentados, como na iminência de desabar.

Em 2003, com o livro-objeto Enquadramento, Paulo D’Alessandro terminou de liberar o negativo de suas coerções espaciais e temporais. A mitologia do instante exato capturado foi substituída por uma infinidade de instantes sobrepostos. A linguagem da interrupção e do intervalo entre fotogramas foi vertida em uma narrativa sem cortes, que instaura uma nova forma de continuidade, como que intrínseca à obra. A fotografia, aqui, deixa definitivamente de ser instantâneo da vida. E o espaço delimitado da fotografia torna-se contínuo.

A investigação dos entremeios da cidade, dos interstícios dos fotogramas, que caminhara cada vez mais para dentro destas superfícies que não se deixam transpassar, até o limite de fazer desvanecer os muros e demais divisões, chega agora à imagem de horizonte novamente: a extensa fotografia que une dezenas de rolos de filme coloca-se na altura do olhar. D’Alessandro investiu contra a cidade, flagrou sua destruição cotidiana, para finalmente encontrar um horizonte possível e fazer jus à utopia de retratar São Paulo.

Juliana Monachesi

 
 
by artebr.com