voltar    
A cor das escolhas

Esta exposição, necessário que se diga antes de tudo, é composta de quadros feitos com uma alegria contagiante. Escolho a palavra “quadro” em lugar de “pintura” para frisar a dimensão objetual das pinturas de Marcus Vinicius. E escolho a palavra “alegria” em vez de algum eufemismo que indique a mesma coisa –energia, emoção, potência– para sinalizar de cara que o projeto que anima estas obras é uma razão excitada. Marcus Vinicius pinta com uma lucidez delirante: por necessidade e por puro prazer.

Artista que já conta bons 15 anos de trajetória –em que, se por um lado mantém rígida coerência na pesquisa acerca dos elementos constitutivos do quadro, por outro vem sendo capaz de se reinventar e escapar com inteligência das ciladas armadas por ele próprio– Marcus Vinicius já foi “lido” como variante da abstração geométrica, como continuidade da tradição concretista brasileira, e até como herdeiro de um “expressionismo pop”.

Nenhuma destas matrizes basta para ler os trabalhos das três novas séries que o artista apresenta na Galeria Virgilio: “Expansivos”, “Hipnóticos” e “Horizontais” têm um intenso diálogo com o mundo e com a cor entendida como fenômeno cultural. Marcus Vinicius não mistura tintas. Trabalha com as mesmas tonalidades que tingem nossas roupas, carros e embalagens de sabão em pó e alia esta dimensão mundana e subjetiva da escolha de cores à complexidade das combinações possíveis desta que é a variável mais inconstante da lógica visual. As cores, em sua obra, são índice franco da experiência humana.

A mais feia de todas as cores, um cáqui esmaecido, ganha ares simpáticos na composição de um dos “Expansivos”. Um verde incômodo, que não tem muita saída na indústria porque “não cabe em lugar algum”, segundo o artista, encontra espaço entre um verde-água e um cinza, um pouco se escondendo, um pouco revelando as intenções mais íntimas do quadro. A escolha, em uma pintura, de tons naturalistas lastreáveis na experiência da paisagem paulistana contrasta com a eleição, na pintura ao lado, de cores mais afeitas à paisagem midiática.

Marcus Vinicius gosta de falar sobre a “química interna do quadro”. Cores deliberadas aplicadas sobre superfícies (madeira ou vidro) encaixadas que devolvem ao observador a opção por desvendar a intrincada montagem mental que levou a cabo a obra diante de seus olhos. Os “Hipnóticos” não têm pequenas dimensões por acaso: eles pedem uma aproximação para que os vértices e retas internas sejam desvelados e para que o jogo de espelhamento seja testado. Onde está a cor nestes quadros? No fundo, nas bordas, nas reentrâncias? E qual o papel do espelho que, conforme a cor de fundo, absorve mais ou menos do entorno do quadro?

Avesso às “coisas aderidas”, o artista intitula a série de quadros horizontais com esta mesma palavra, num jogo tautológico que faz pensar que os “Expansivos” têm alguma ousadia a mais. Têm mais expressão, mais brincadeira, têm diagonais que definitivamente não caberiam nos “Horizontais”, têm áreas de cor intensa espremidas por um retângulo branco que dão, no contexto contemporâneo, condições de existência a este branco absoluto. Marcus Vinicius é, afinal, um apaixonado pelos jogos cromáticos e formais que deixou, há muito, para trás, as amarras do cromatismo e do formalismo. Diverte-se e contagia o observador indelevelmente com sua joie de vivre.

Juliana Monachesi

 
 
by artebr.com