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Marcelo Solá: Desenho e Profanação

A cidade e o desejo. “O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de uma cidade”, afirma Ítalo Calvino. Marcelo Solá posiciona seus desenhos entre a cidade e o desejo. Cria marcas, inscrições, vestígios como um andarilho que percorreu a cidade e seus avessos. Rabisca de maneira tão subversiva que faz do papel um lugar que parecia escondido, segredado, marginal. Ali se aproxima de escritos anônimos, gestos que parecem automáticos, sem pressões religiosas, políticas, ao que Charles Baudelaire denominou “escritos íntimos”. As cidades, assim, produzem estas marcas, nas portas dos banheiros, nos muros, no tronco das árvores, nas carteiras escolares. Solá arranha, destaca, apaga, sexualiza aquilo que elege como protagonista. Eróticos ou não, os símbolos adquirem o caráter obsceno. Parecem diários. Parecem escritos por vários personagem. Na escrita, Solá se metamorfoseia em heterônimos, “Chanter Clayson”, como Fernando Pessoa. E, talvez, por isso mesmo, as imagens sejam bem parecidas umas com as outras, já que a primeira pessoa do relato será sempre outra. No presença das marcas, da caligrafia, as diferenças acontecem, tornando-as individualizadas, mas absolutamente semelhantes. A subversão ao mesmo tempo anula e evidencia o anonimato dos sujeitos. Perambulando nas cidades, os desejos criam uma espécie de memória profana dos lugares. Por não saber quem és, cresce o meu desejo. Escritos anônimos, escritos automáticos, escritos íntimos.

Quando buscou o gesto expressivo, Jackson Pollock acreditava no automatismo. O automatismo foi decretado falácia ao percebermos que um Pollock se parecia com o outro. Como burlar o consciente? Tarefa impossível. A saída, se é que exista, é produzir declarações do “eu” que jamais substituem os sujeitos, apenas os identificam, como monogramas, assinaturas, carimbos personalizados, nunca o “eu”, sempre a outridade. Por isso, Marcelo Solá rabisca e desiste. Deixa as marcas do apagamento. Tangencia o mundo das sombras. Comunica-se por mensagens cifradas, evidenciando as errâncias do desejo. O gesto expressivo de Solá busca o elemento gráfico e comunicacional, entra “nas idéias pelas palavras”, parafraseando Anne Cauquelin. O sujeito torna-se meio e mensagem.

A obra de Marcelo Solá mostra-nos o interesse por profanações. Profana-se a superfície auratizada da tela e do papel, a limpeza na execução, os símbolos civilizatórios, a moral, os afetos, a aderência da tinta que escapa e escorre sobre o suporte. As coisas pertencem aos deuses? Usar ou profanar? Profanar, segundo Giorgio Agamben, significa “abrir a possibilidade de uma forma especial de negligência”, ignorando a separação entre o sagrado e o mundano. Solá escreve e rabisca, desenha e desmancha, monta arquiteturas cuja edificação é impossível.

Nos desenhos de Marcelo Solá para a exposição na Galeria Virgílio, vemos a predominância do preto e branco. Nas marcas e arranhões sobre o papel, lemos datas, 2 – 07 – 09; 28 – 05 – 09. Percorremos lugares: Stone house, hidrolândia, condomínio. Entramos em contato com materialidades descritas: sólido, água, terra. Ficamos cara-a-cara com um beco.

Manuel Bandeira, em 1933, escreveu o Poema do Beco: “Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? – O que eu vejo é o beco.” Leonilson desenhava pódios vazios, sem ser o vencedor. Marcelo Solá desenha becos, ignora a linha do horizonte. Atrai-se por quinas, escadas, cantos, aviões. Meios de se transportar, utopias para se desistir. Limites da observação. O olhar de Solá coaduna-se para um todo sem paisagem. A observação, ainda que pareça ampliar-se em céus, busca as brechas entre arquiteturas. Monumentos tornam-se brinquedos de montar, esquemáticos, de coordenadas, arestas, conexões desestruturantes, como uma espécie de herança construtiva em ruínas.

O interesse de Marcelo Solá revela uma atração pelos incorporais. Segundo Anne Cauquelin, as obras contemporâneas partilham de um fascínio pelo “irrepresentável, pelo indizível, pelo tempo diferido, pelo invisível, pelo vestígio do vestígio”. Na cidade contemporânea o excesso de informações mata a informação. O mundo comunicacional evidenciado nos desenhos de Solá age com uma “informação expulsando a outra”. Assim, vemos camadas de tinta que deixam semi-transparente o que está por trás da pincelada. O uso do preto funciona como uma potente metáfora da anulação, mas mantém a pregnância do que se tentou esconder. Obviamente, tudo isso trata-se de estratégias de expressividade num momento em que as grandes ilusões do expressionismo deixaram de ser dogmáticas. O desenho de Solá não partilha de dogmatismos. Critica ao mesmo tempo em que estetiza a presença do sujeito que subverteu a limpeza das cidades, mas não sucumbiu à castração do desejo.

Marcelo Campos

 
 
by artebr.com