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O devaneio do limiar*

Fachadas erguidas como verdadeiros mausoléus anônimos, quotidianos, cuja justaposição pontua o ritmo do passageiro no desvio de uma esquina noturna. Ruas desertas dos seus “flâneurs”, aureoladas pela luz viva dos neons e dos revérberos. A sua suave e frágil presença vem romper o silêncio ambiente para reduzir-se a sua mais ínfima vibração colorida. Vestígios contemporâneos que compõem um cenário urbano que sempre atravessamos, cada uma das suas telas congeladas, impressa na fina camada de papel, dá livre curso ao sonho do olhar contemplativo.

O olho atento se deixa surpreender, subitamente invadido pela impressão de um “déjà vécu” estranhamente familiar. Essa impressão acaba por ser enfatizada pela fatura estranhamente anacrônica de cada prova que nos envolve, “à rebours”, pela suave atmosfera melancólica dos antigos autocromos. Fotográficos, esses diversos espaços revelam uma interpretação singular da paisagem urbana, e reinventam o simulacro perfeito de um real ordinário “posto em abismo”.

Finalmente, essas paisagens com figuras conseguem tornar o objeto arquitetado em um perfeito subterfúgio para a imagem fotográfica como reflexo enigmático e imutável do mundo. Gravados na fina película sensível, essas paisagens se apresentam como “memento mori” que sempre nos lembra a nossa condição efêmera. Sonhamos imediatamente com o vão desejo de manter presente o que nos é quase ausente, tentando extrair do fundo dessas vistas urbanas toda sua força imagética, apesar da sua desaparição iminente.

Espaços de um tempo suspenso, fora do tempo, que nós leva à curiosa experiência de sentir-se fora de nós mesmos. Tal é o convite à viagem poética ao qual nos convidam as imagens sensíveis de Maura Grimaldi. Além do simples ato fotográfico, elas esboçam um percurso que evoca, nesse sentido, o que os pintores antigos chamaram, em seu tempo, de devaneio do limiar.

Samuel de Jesus
São Paulo, maio de 2012

* Texto presente na exposição no Museu de Arte Contemporânea em São Paulo (MAC) e no Centro Cultural São Paulo (CCSP)

 
 
by artebr.com