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Biblioteca de vidro*

“Pensamento é espelho diante do deserto de vidro da extensão.”
Paulo Leminski

Reunião de cabeças pulsantes agracia e justifica o tampo transparente. O desejo de estar junto. Somos quatro em volta da mesa quase pequena. Cinco... Quando seis ficamos de fato apertados, mas confortáveis com a proximidade. Cada qual com seu laptop. Uma música qualquer concentra as ideias dispersas. A banda sonora ao mesmo tempo em que une permite a fragmentação do universo partilhado sobre a plataforma de vidro. A Biblioteca da Casa concentra um mundo de dizeres calados e espaços silenciosos. Sinestesia galopante. Em alternativa ao cafofo subterrâneo, a biblioteca transfigura-se em refúgio em dias mais frios. Por ali ficamos a ler um livro ou pesquisar convivências passadas. Escrever, conversar, estar, trabalhar.

Entre o subir e o descer das escadas, entre trocas e delongas dialogadas, Mau e Fred se perdem de vista na vitrine. Horas a fio. No primeiro respiro da noite, o ruído do projetor dá o ar de sua graça anunciando mais uma sessão de paisagens paradas. A escada de metal suporta o projetor em escalada. A fita crepe adere ao vidro e filtra a luz dos slides. O que se vê do lado de dentro não é o mesmo que se vê do lado de fora. Situação invertida da projeção e do tempo. O feixe luminoso que atravessa o vidro acaba por se perder no espaço, evapora-se como num sopro refulgente. A imagem velada encontra seu contorno na superfície do branco da fita, ou da pele em tons de azul, em nuances de vermelho. O foco se perde, a textura permanece. O que resta é a certeza de que a cópia do mundo desconsidera qualquer tipo de fidelidade presumida.

Então se passa do efêmero da luz à materialidade do desenho. O corpo projetado transforma-se em desenho nas mãos de Mau. Ganha pernas, ou braços, e desce para o cafofo criativo. Na parede, já não tem mais autoria. Acréscimos, intervenções, o crepe é apropriado pelas demais mãos e canetas e ressignifica em novo corpo junto dos olhos daqueles que por ali passam. Um estudo de canetinhas.
Elas, as cabeças, voltam a ser sete na biblioteca de vidro. Em pequena escala, breves diálogos. Concentra- das na finalização de uma etapa verde para além do lúcido planejamento das estantes, elas tresnoitam em estrelas esbugalhadas. Uma trajetória sinuosa abre mais uma curva na direção de um galpão achado em Guarulhos. A fachada verde não comporta grama. As cadeiras cegas dão suporte aos corpos que pensam, ali, na biblioteca da Casa.
fachadas.[...]”

Camila Fialho

* Texto de Camila Fialho para a publicação “Convivência #6”realizada na ocasião da residência artística Ateliê Aberto#6, 2012, oferecido pela Casa Tomada (SP).

 
 
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