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O Sono e a Pele

Estou convencido de que as artes visuais ou plásticas são, de fato as artes da presença. Isto é, são o meio através do qual o artista torna visível sua percepção do mundo ao moldar a matéria à sua imaginação, criando presenças, que são as obras de arte. E, para que isso aconteça, é necessário que o artista se permita transitar no vazio que existe entre as coisas – onde são em potência -, para que faça emergir uma nova organização visual, que é a materialização de seu desejo expressivo: sua singularidade. Tanto maior será o artista, quanto mais determinadamente enfrentar esse desafio.

Monken não teme esse desafio. Ao contrário, o que lhe interessa e o que interessa na sua obra são as regiões limítrofes, que ficam entre as coisas ou entre os estados das coisas. Opta por transitar em um território de fronteiras movediças e constrói sua obra a partir do sono e da pele. Pode parecer obscura esta afirmação, mas são esses os elementos que escolhe para trabalhar.

Na instalação Oscilações, por exemplo, a matéria que informa esse trabalho é o sono. Esse estado em que, em vida, experimentamos que somos parte da morte, ou, ainda, esse estado onde somos todos iguais: todos nos alimentamos de sono.

A foto do menino de rua dormindo, que ora se aproxima, ora se afasta de nós, nos deixa em dúvida: estará ele morto ou estará dormindo e ainda respira no mesmo movimento oscilante da imagem, que nos lembra o movimento do pulmão ao encher-se e esvaziar-se de ar? É mais fácil pensa-lo morto do que dormindo porque, dessa forma, experimentamos uma culpa que nos alivia de nossa anestesia diante da brutalidade de nossa situação social. Mas é sono, que é esperança, que é onde ele é igual a todos nós porque pode sonhar. Através do território comum do sono, Monken nos fala de nossa vigília anestesiada, que nos faz supor que é morte o que é de fato sono. E, nos indica, também, de como nos protegemos da dor, criando uma película – que é fotografia – que nos aproxima e nos afasta do mundo, como uma pele.

A metáfora da pele, então, emerge como um outro elemento fundamental da sua obra, que está associada ao uso do azulejo como elemento plástico. O azulejo é frio, refratário à água – que é o elemento fundamental da vida -, isola e protege. Como uma pele, é a fronteira entre o dentro e o fora; entre o que esconde e o que revela. Monken o conjuga com a fotografia, ao criar uma tensão visual entre a sedução do detalhe, que a fotografia propicia como imagem mimética – ou pele do mundo – e a frieza e o afastamento que a superfície anti-séptica do azulejo induz. Essa tensão feita de contrastes, atrai e afasta, criando um campo de ambigüidade, que é reforçado pelo desenho-cicatriz, que calca o azulejo, contemplando a imagem fotográfica, como se quizesse desestabilizar a frieza da superfície brilhosa, provocando-a através do corte e nos fazendo aproximar dela pela precisão do desenho como incisão.

Esta incisão, no contexto da obra de Luiz Monken, tem a mesma função do corte na pele, que revela o interior do corpo humano. Em outras palavras, por trás da superfície que nos protege e nos diferencia, ao estabelecer nosso limite corpóreo, existe um outro e mesmo mundo em ebulição. Da mesma forma, nos trabalhos do terceiro momento dessa exposição, o artista nos apresenta o avesso do azulejo, e nos revela um mundo conturbado que se esconde por debaixo de sua superfície fria; e cria um paralelo com o estado anestésico que desenvolvemos para nos proteger e que nos permite conviver com nossos problemas sociais, ao camuflar nossa enorme brutalidade em relação ao outro.

As construções intuitivamente ordenadas dos cacos de azulejos (propositalmente quebrados pelo artista) constroem tramas visuais, que nos parece suavemente orquestradas, como se fossem um quebra-cabeças poético da destruição. Mas o que Monken nos indica é que nesses trabalhos não há destruição, mas desconstrução. A matéria cerâmica é deslocada de seu uso utilitário de azulejo, para se constituir em matéria prima de uma nova realidade, que é o seu oposto: a sedução do fragmento e da organização espacial geometrizada – que encanta o olhar nacional educado na tradição visual moderna, que procura dar conta do caos e da ordem de nossa organização político-social -, mas cujos cacos, vistos de perto, possuem arestas que podem ferir e cortar.

A circularidade de sentidos que Monken estabelece através de sua obra, entre o sono e a pele, entre o que é de todos e de cada um, entre o que nos anestesia e nos toca, entre o que esconde e o que revela, faz dele um artista vigoroso, que não teme os perigos e reconhece a riqueza que existe na ambigüidade – que habita os territórios instáveis – como sendo a força capaz de expressar as formas de verdades de nosso próprio tempo.

Marcio Doctors
Rio de Janeiro, abril de 2004

Marcio Doctors, crítico de arte. Curador da Fundação Eva Klabin e do Espaço de Instalaçãoes Permanentes do Museu do Açude. Foi secretário particular do crítico de arte Mario Pedrosa e é mestre em estética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Crítico de arte do Jornal O Globo entre 1979 e 1982, tem artigos publicados em várias revistas de arte brasileiras e internacionais. Em 2002 foi eleito para o Conselho Internacional do DEMHIST, comitê do ICOM que cuida das casas-museus. Idealizador do Projeto Respiração de 2004 a 2005 na Fundação Eva Klabin.

 
 
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