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Metáforas para reflexão


Exposição Sobrevôos na galeria Mercedes Viegas Arte Contemporânea (2007)

Três elementos fazem-se presentes nesta exposição: o azulejo, a pedra e a madeira. confrontados, oferecem-nos temperaturas gradativas. Entre a frieza do azulejo e o calor da madeira queimada está a pedra em sua temperatura natural. De algum modo, todos se referem à Natureza: o azulejo, associado à arquitetura, participa da sua construção-simulação; a madeira queimada constitui-se como metáfora do seu perecimento; e a pedra, em seu estado bruto, sua existência potencial. Os três modos distintos de pensar a Natureza conciliam-se na maneira de olhá-la. Se, de acordo com uma ótica tradicional, a Natureza estava para o espaço pela linha do horizonte, nas obras de Luiz Monken ela converte-o em vista aérea.

Sobrevôos oferece-nos uma visão topográfica de obras que, em si, são lugares. Especialmente nos objetos em azulejos revelam-se espessuras de uma Natureza simulada em que se desenham os seus movimentos incessantes. À dureza do azulejo contrapõem-se a maleabilidade das linhas que convertem tais objetos em desenho, i.é., um modo contemporâneo de exercício desta prática. Tal qual nas colagens de Matisse a linha define-se pelo corte no material. Os desenhos-lugares de Monken ora nos fazem remeter a superfície da água quando atingida por um pedra ora aos acidentes naturais numa superfície de terra.

A materialidade do azulejo colabora na ruptura de uma percepção frontal da obra, à medida que sua lateral revela não apenas as suas camadas sobrepostas como também a sua constituição material. Dito de outro modo, à brancura frontal de seus objetos (o esmalte branco do azulejo) confronta-se o tom terroso da matéria-prima que lhe deu origem (a cerâmica). Tal confronto auxilia na revelação da compleição da obra e suas possíveis visualidades. Vistas de frente são percebidas como desenhos; de lado, como objetos.

A passagem do ser bidimensionalidade para o ser tridimensionalidade e vice-versa faz revelar a poética que permeia todas as obras do artista nesta exposição – a relação estreita e ambígua entre a Natureza como re(a)presentação e como presentificação. Nos seus objetos desenhos-lugares a re(a)presentação se dá pelo modo gráfico como o artista pensa a Natureza nos seus movimentos contínuos. Paulatinamente, de acordo com o nosso movimento, a Natureza presentifica-se ao avolumar-se e ganhar contornos tridimensionais. Também se inscreve neste contexto a sua faixa de azulejo, que, pela ambigüidade de sua compleição, ora é plano-superfície, ora é volume-espaço.

No chão, uma obra instalativa exige o nosso olhar de sobrevôo. Um conjunto de placas de madeira com piões sobre elas, todos queimados. As placas-planos de madeira revelam áreas desgastadas recorrentes do movimento incessante dos piões. Constituem-se como marcas-memórias de uma ação contínua e insistente que gerou sua própria destruição. Também aqui o plano tridimensionaliza-se – pela ruptura da superfície dos planos e pela presença dos piões – estabelecendo uma ambigüidade espacial.

À frieza dos azulejos e ao calor das madeiras carbonizadas contrapõe-se a pedra em seu estado natural revelando a Natureza como potencialidade e permanência. À pedra como realidade física (no chão da galeria), como presentificação, tem-se o embate com o seu oposto, i.é., a sua re(a)presentação nas impressões sobre papel nas paredes da galeria. À medida que habitamos o espaço do mesmo modo que aquela pedra no chão da galeria, quando nos deparamos com as suas representações fixadas na parede, experimentamos uma espécie de sufocamento pelo estreitamento que a imagem bidimensional impõe àquela forma ora tridimensional.
A relação entre matérias e materiais e suas realidades constitui-se, aqui (e de um modo geral na produção do artista), como metáforas para a reflexão do ser e do estar-no-mundo. Sobrevôos, de Luiz Monken, oferece de modo sutil e inteligente uma percepção daquilo que é questão recorrente na arte do período contemporâneo – a sua dimensão filosófica.

Zalinda Catarxo
Rio de Janeiro, agosto de 2007

Texto publicado na edição número 2 da revista PAPEL DAS ARTES, sobre a exposição SOBREVÔOS de luiz Monken na Galeria Mercedes Viegas Arte Contemporânea, que aconteceu no mês agosto de 2007
Zalinda Cartaxo – Doutora em Artes pela Usp e Artes Visuais pela UFRJ, mestre em História e Crítica de Arte pela UFRJ, artista plástica


 
 
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