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Série “Encontro com o Artista”
Centro Cultural Candido Mendes
Galeria de Arte de Ipanema.

Encontro de Paulo Sergio Duarte com a artista plástica Lucia Laguna por ocasião de sua exposição em 17. 07. 2007

Trecho da fala de Paulo Sergio Duarte sobre Lucia Laguna

Paulo Sergio Duarte: Eu não via o trabalho de Lucia Laguna há algum tempo; sempre respeitei sua qualidade pictórica. Acompanhei um pouco as exposições da Lucia neste período. O trabalho vocês têm aí, bem diante dos olhos. É sempre incômodo o trabalho do crítico. Falar da experiência ótica é sempre uma coisa estranha porque é uma experiência que se faz por si só. Se entrega plenamente aos sentidos e mobiliza o corpo inteiro com uma integridade muito grande quando se trata de uma experiência artística. Mas nós, seres humanos, seríamos sempre incompletos se não reivindicássemos o lugar que nós habitamos. Um grande filósofo do século passado (Heidegger) disse que “a linguagem é a morada do Ser”. Uma linguagem sem a palavra não vai ser nada. Olhar ou ver, uma série de animais tem essa experiência. O que eles não têm é o dom de devolver o olhar sob a forma de palavra. Então eu sinto que existe essa necessidade de repor e não dizer que complementa a experiência, mas tentar retraçar essa experiência do olhar recolocando-a neste lugar que é a morada do ser.

No caso da Lucia, me surpreende primeiro um traço que acho característico de toda grande arte contemporânea brasileira. Tenho reiterado isso: uma das questões básicas da grande arte contemporânea brasileira é não manter uma relação edipiana com o passado moderno. Ela não tem nenhum pai superpoderoso para ser assassinado, que atravessa o seu caminho, que passa com a roda do seu carro em cima de seu pé. Ao contrário de outras situações culturais onde houve uma modernidade muito densa, muito bem instituída e ganhando visibilidade pública, nas quais a arte contemporânea foi obrigada a criar cisões muito fortes em relação ao passado moderno, e se inaugura, com sinais de ruptura, de revolta mesmo, em relação este passado.

No caso da transição da modernidade para a contemporaneidade na arte brasileira, ela se faz, ao contrário, com relações e interações muito poderosas. Em todo grande artista contemporâneo brasileiro há relações e interações intensas com o passado moderno.

A modernidade se faz presente na contemporaneidade através de um diálogo produtivo, e não através de signos de ruptura de revolta. Então isto é um diferencial próprio à nossa história.

Nós reclamamos muitas vezes da nossa modernidade mal acabada, de uma modernidade que não se instituiu, que primou até por instituições que foram criadas por não instituírem nada, quando o dever das instituições é instituir as coisas. São instituições que não instituem nada, deixam tudo flutuando no ar, em uma atmosfera de precariedade. Mas em compensação, devido a alguns pontos de ancoragem muito fortes desse passado moderno, ele se faz presente, e os artistas contemporâneos podem estabelecer esse diálogo, de uma relação mais paternal com seus pais modernos. É uma relação menos de filho para pai e mais de irmão para irmão, apenas como se o artista moderno fosse o irmão mais velho.

Isto se faz muito presente na pintura de Lucia Laguna. É uma pintura que não abandona a experiência moderna da questão planar. Re-insiste na questão do plano que é uma tradição que, inaugurada por Cézanne, é absolutamente consumada pela revolução cubista, e explorada por grande parte da vertente pictórica do século XX. E acho que essa questão da planaridade da pintura é muito importante no caso da Lucia e está diante dos nossos olhos com muita clareza.

Outro elemento quando a gente vai dialogar com a Lucia, com as duas experiências que tive dentro do atelier dela. Uma há alguns anos atrás, e outra mais recentemente em torno desta preparação da seleção de trabalhos. (Para a exposição, na verdade, não houve seleção nenhuma. O olho da Lucia e as mãos da Lucia foram o que selecionaram através do seu próprio fazer as coisas. A exposição estava praticamente pronta diante dos meus olhos no atelier dela.) É que a gente vê, entre a grande variedade e a grande multiplicidade de manifestações da arte contemporânea, manifestações que às vezes, na obra de um mesmo artista, diverge de tal ponto que se olharmos a exposição sem uma etiqueta que nos ajude, a gente pensa que são dois artistas inteiramente diferentes que fizeram aquela obra. E nos surpreende que, às vezes, é o mesmo artista que fez a mesma coisa. Lucia guarda esta integridade de linguagem relacionando os trabalhos uns com os outros por meio de uma estrutura de parentesco que não é bem característico do mundo contemporâneo. Isto também é uma forma de trazer a modernidade para o presente.

Um filósofo jovem, que não me ocorre o nome agora, fala na questão da persistência da modernidade como um fator produtivo da contemporaneidade. Ele fala isso com um contexto filosófico, teórico, muito especifico ao quadro estético da literatura. Mas eu veria isso também no caso da pintura, em certas manifestações do presente, e, no Brasil, no caso da Lucia Laguna é muito claro.

Outra questão que eu queria sublinhar, então, falando dessa multiplicidade da contemporaneidade: é que examinando essa multiplicidade, tenho pensado muito sobre duas estratégias muito claras dentro da arte contemporânea.

Uma dessas estratégias é aquela que explora de forma muito inteligente, às vezes de forma menos inteligente, mais prosaica, uma das dimensões do mundo atual, que é a questão do espetáculo.

Guy Débord já chamou a sociedade que nós vivemos de “Sociedade do Espetáculo.” Até para falar da mercantilização generalizada de todas as relações sociais, e à medida que todas as relações sociais se mercantilizam, a dimensão espetacular da coisa é o que fica e não fica mais nada. Mas estou falando do espetáculo numa dimensão positiva, não negativa. Para concorrer com as forças que estão em ação no nosso cotidiano, sobretudo na proliferação de imagens que o universo da sociedade de consumo nos apresenta, na riqueza, inteligência e beleza de seus outdoors e de seus anúncios luminosos, a arte se reserva de uma forma também espetacular para o momento de concorrer com este universo cotidiano.

Mas existe uma outra estratégia, que não é a estratégia do espetáculo, que também se manifesta de modo forte, com poéticas densas, no mundo contemporâneo, que é a estratégia da delicadeza. Grande parte da pintura de Lucia Laguna se inscreve mais no universo da estratégia da delicadeza do que na estratégia do espetáculo. A monumentalidade da pintura de Lucia Laguna nos indica um traço moderno muito elevado no qual a modernidade brasileira não soube responder à altura. É a sua dimensão pública, ou seja, a sua escala chama e pede um observador anônimo e não aquele observador doméstico. Não é uma pintura feita para parede da casa grande. É uma pintura que, mesmo na sua menor escala - e por isso eu fiz questão de trazer os estudos de natureza morta -, se quer anônima e pública, de uma autoria poética individualizada, mas que não se dirige ao universo familiar. Se dirige a uma sociedade anônima, a uma coletividade, a alguém que possa fruir independentemente de saber a origem dessa pintura, como ela foi feita.

Sabe-se que boa parte da modernidade brasileira não foi feita nessa direção. Boa parte da pintura moderna brasileira trabalhou para dentro de um espaço íntimo, não o intimismo dos seus temas, mas no espaço íntimo no sentido da privatização da sua fruição para sala de visitas dos poucos eleitos que poderiam ter uma pintura em casa. Daí sua escala menor, daí os grandes formatos serem uma novidade relativamente recente na história da arte moderna brasileira (salvo alguns painéis de Portinari dos anos quarenta, no edifício Palácio Capanema). Grande parte da pintura moderna brasileira obedecia a um regime de consumo privado, mas mais do que privado, a um regime de consumo doméstico, era uma pintura que já nascia domesticada. Um grande exemplo que temos disso, (é) quando Rodrigo Naves lembra as experiências de Tarsila do Amaral. Em um estudo que publiquei em 1998, fiz questão de sublinhar esta diferença. Apesar da verve e da virulência do nosso Manifesto Antropófago, um manifesto muito virulento, uma teoria da cultura muito radical, mas não temos a prática artística condizente àquele manifesto. Quando nós olhamos quadros, e vou citar, com outras palavras, o Rodrigo Naves, quando vemos os bichinhos da pintura antropofágica da Tarsila do Amaral, (e como) bem diz o Rodrigo Naves, temos vontade de fazer carinho neles, acariciar suas cabeças. A gente não está diante de nenhuma violência antropofágica. Os pintores que teorizaram essa antropofagia, que foram solidários com essa antropofagia, não souberam praticá-la efetivamente. A pintura ainda é para um consumo muito íntimo e muito pouco público.

Essa pintura de Lucia Laguna aspira a essa dimensão pública que já faz parte de uma arte brasileira pelo menos nos últimos trinta anos e manifesta claramente essa dimensão que a diferencia da tradição moderna brasileira. Essa escala, não apenas na questão da escala física, mas pela escala do regime de apresentação das suas superfícies pictóricas, do seu anonimato, que dá uma dimensão absolutamente moderna a pintura de Lucia Laguna, coisa que uma modernidade brasileira ainda não tinha alcançado.

Coube à contemporaneidade brasileira, a partir de Volpi, talvez, seguramente, a partir de Eduardo Sued, no caso da pintura, para não falar das experiências escultóricas mais radicais de Weissmann e de Amílcar de Castro, e das investigações da fronteira da contemporaneidade e inaugurais da própria contemporaneidade em nosso país, de Lygia Clark e Helio Oiticica anunciar uma dimensão pública. Para ficar somente na esfera da pintura, a partir de Volpi uma dimensão pública se anuncia que não é a dimensão física da tela, mas a dimensão poética que se dirige para o olhar urbano e anônimo, e não para uma família numa sala de visita. Isso a pintura de Lucia Laguna tem claramente, no meu ponto de vista.

Mas, mais do que isso, dentro desta estratégia da delicadeza, ela está falando do espaço urbano contemporâneo. Essa pintura é uma pintura de observação. Não é pintura abstrata, no sentido de um olhar introspectivo, para um imaginário que se configuraria na subjetividade de Lucia Laguna. Isso é uma re-elaboração de uma observação da cidade do Rio de Janeiro e, mais propriamente, da paisagem que ela observa a partir da janela de seu atelier, numa pacata rua sem saída no bairro de São Francisco Xavier. Lá ela pode observar, desde ao longe, um pedaço da Linha Vermelha até a favela da Mangueira e, passando mais perto, o casario dessa rua calma. E o universo interior também do atelier; há uma passagem de interior para exterior onde nós não sabemos discernir direito se nós estamos dentro ou fora. Ela traz para a superfície da tela algo que faz parte da radicalidade da escultura moderna a partir de Tatlin e de toda experiência construtiva. E particulamente, também, de algumas esculturas cubistas de Picasso, ou seja, não existe mais dentro nem fora. Nós não sabemos discernir o que é dentro e o que é fora numa escultura de Tatlin E à partir de Tatlin e de toda uma experiência construtiva. Não existe o dentro e o fora numa escultura do Weissmann ou num bicho da Ligia Clark ou numa escultura de Amílcar.

Nessa pintura também, que é uma pintura de observação, que se entrega na radicalidade planar de uma conquista moderna, ela também interrompe a segmentação entre interior (atelier) e exterior (paisagem).

Nós sabemos que há passagem, nós sabemos a partir de um diálogo que vamos ter aqui, que existe essa experiência da observação da cidade, das suas empenas, do seu casario, do espaço vazio do atelier e dos espaços vazios que se anunciam entre os edifícios. Mas esses vazios, que são preenchidos por superfícies cromáticas, não nos são entregues de forma literal.

Ali, de repente, eu vejo uma rampa, ou as costas de uma escada que desce, parece um Escher. A gente não sabe se desce ou sobe. Ela me apresentou essa descoberta, ali não sei se vejo uma rampa que desce ou uma rampa que sobe. Há um truque do tipo do Escher. O corrimão sobe e desce ao mesmo tempo. Tanto sobe, quanto desce. A partir desses elementos, eu posso simular uma figuração e dizer que existe ali, a imagem de um corrimão e de uma rampa. Mas nada está tão evidente assim. Pode ser somente um traço na tela.

Ali eu posso ver a configuração de uma vegetação, só com o atributo afetivo do verde. Mas necessariamente não é isso.

Já quero logo começar a falar com a Lucia e gostaria de salientar: vejam a força poética, a potência poética pode estar tão presente na estratégia da delicadeza, quanto na estratégia do espetáculo.

Existem evidentemente, certas pinturas e instalações que se impõem pela sua dimensão espetacular. Não quero absolutamente desvalorizar o elemento espetacular em obras de arte contemporânea. Pelo contrario, não estou associando diretamente a todas elas, andarem a favor da corrente contemporânea da sociedade do espetáculo. E quis salientar que nessa dimensão espetacular, das imagens que nos são oferecidas cotidianamente, muitos artistas encontram como saída e como manobra estética para sua necessidade de produzir, concorrer com esse universo e responder de maneira altiva e demonstrando que a inteligência de um outdoor não é uma obra de arte, porque existem obras de arte que demonstram que aquilo que estamos vendo, anunciando o macarrão, a manteiga ou a lâmina de barbear, não tem a estatura poética dessa outra obra que também sabe se manifestar espetacularmente, na cultura da imagem.

Mas no caso da delicadeza, cabe a gente, ter um esforço reflexivo maior, porque a tendência da poética da delicadeza é ser eclipsada por esse universo, onde predomina esse culto a civilização da imagem, onde predomina esse culto à dimensão do espetáculo!

Aqui estão muitos amigos de Lucia e muitas perguntas que vou fazer, vão parecer redundantes, para eles que já estão cansados de saber.

Mas trata-se também de uma memória, de gerar um documento, que está sendo gravado, onde vamos preservar este momento aqui, num registro para que no futuro pesquisadores possam utilizar.

Agnaldo Farias
Abril de 2006

 
 
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