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O meu direito a não-resposta

O que podemos dizer de uma pintura que se recusa a falar? O recurso da interpretação é, evidentemente, impossível. A análise é uma saída, pois poder ser ainda mais arbitrária que a interpretação. O outro método seria agostiniano: olhar pela janela, tomar e um ar e parar de querer. Querer é perder. Viu como dá certo? A pintura de Kabani é um efeito, mostra uma preocupação com o efeito, mas nenhuma preocupação com o que esse efeito causa. Deve ser o tal do desinteresse kantiano. Ou não, vai saber. Mas esse método nos sugere que olhemos para fora dela, do campo circunscrito da obra ou, melhor ainda, podemos olhar para o que a obra não é. O que vemos em primeiro lugar é que tanto os choramingos pela subjetividade perdida a la Sculli, quanto os choramingos pela suposta opressão exercida pelo cubo branco e a instituição da arte sobre as pobres almas criadoras não faz parte das ocupações de sua pintura. Cada um com seus problemas. E talvez, por exclusão, tenhamos chegado ao que também não é, mas poderíamos atribuir como sendo, o assunto de sua pintura. Um pouco desse laizes- faire cansado da vida contemporanea, mas incrementado por uma distancia técnica que também não pede aceitação retórica da técnica. Afinal, cada um sabe de si. Agora me ocorre que posso fazer melhor com a sua obra: usar a sua opacidade instrasponível arbitrariamente, como escudo e espelho deformador contra o Discurso, encaixando as gretas de sua pintura, suas estrias - incapazes de revelar o interior inexistente da sua pintura – nas fendas, nos espaços neutros e não-vigiados dos discursos dominantes, para que possamos desmistificá-los, suplantá-los e finalmente, deixarmos de falar desses discursos. Por isso e eu resolvi, arbitrariamente, usar a sua pintura contra a conversa-mole de viés ético-moral que solapa a produção artística séria, contra o rancor pelo Cubo Branco e pela instituição da arte, contra a arte-vida (está na moda, essa tal de Vida), e contra os os reacionários denuncistas das grandes Narrativas Repressoras. Para todos esses discursos, o que a pintura de Karen Kabani tem a dizer é o seguinte:

Rafael Campos Rocha
Texto crítico para exposição Atos Visuais - funarte 2008