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Performance pela Luz

O trabalho de Júnior Suci tem a capacidade de unir delicadeza, simplicidade e potência crítica. Seus desenhos, sempre de pequenas dimensões, reproduzem performances feitas pelo próprio artista solitariamente. Vemos imagens em close-up de partes do corpo realizando ações e/ou gestos, algumas vezes com a interação de objetos. Ao propor a existência de uma performance privada, o artista subverte alguns princípios desse gênero da arte, como a presença do público, bem como relativiza a sua duração. Em uma das séries de desenhos vemos reproduzidas pequenas ações com as mãos, como a de fazer uma figa, imitar um coração ou fazer sexo, acompanhadas das seguintes frases: "Eu posso ter o que eu quiser"; "Eu posso amar quem eu quiser"; "Eu posso foder quem eu quiser". Em outra série, uma lâmpada aparece em diversas partes do corpo, evocando possibilidade de sermos um receptáculo para a aparição da "luz". Com esses poucos exemplos, já é possível entrever muito do que Suci intenciona com sua obra. Trata-se de olhar para estes rituais que incorporamos cotidianamente como sintomas de uma cultura, de um tempo, sintomas que findamos por incorporar e, quiçá, acreditar, sem mais os olharmos com o filtro necessário. Passamos a crer em uma série de superstições, repetimos clichês, e tudo isso possui, na narrativa critica de Suci, um objetivo, a busca cega e neurótica do homem contemporâneo pela "luz" (que pode levar o nome de bem-estar, qualidade de vida, saúde, felicidade). Tal busca é, no universo do artista, traduzida através de um humor levemente corrosivo. Tocar em um ponto central, um dos maiores sintomas do nosso tempo, a colonização de subjetividades guiadas por um ideal de felicidade inalcançável, com tamanha delicadeza e simplicidade é um atributo refinado da obra desse jovem artista. O que solicita uma atenção igualmente delicada e aguda por parte de quem pousa os olhos sobre os seus desenhos.

Luisa Duarte
2009

 
 
by artebr.com