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Entre as medidas do enunciado e a potência do desejo

O que será que existe por trás destas linhas indecisas, trêmulas, ofegantes, frágeis, soltas, hesitantes?
Quais os sentidos anunciados através destes sinais, rastros, índices de passagem?
Que paisagem emerge destes desenhos de Júnior Suci cujas linhas configuram espaços de atravessamento que lutam entre querer ser, parecer ser e desejar ser?
Parecem linhas que não se enraízam no espaço do papel de tal maneira que se balançássemos a folha, elas cairiam para fora. No entanto estão confinadas num campo quadrado e pequeno, feito um tabuleiro de jogo.
Talvez linhas marcadas por uma natureza aérea mesmo quando contornadas e preenchidas por cores epidérmicas, indiciando formas humanas que, apesar de sinalizarem ações, parecem não agir sobre a matéria. Elas não se agarram nelas mesmas, parecem desencarnadas - nem ossos nem músculos. Mais acariciam a epiderme do papel do que cindir, resistir, sulcar a matéria vegetal.
Linhas que aspiram enunciados buscando, a todo custo, uma voz afirmativa por detrás das palavras, quase de ordem, ora datilografadas, ora escritas, rasuradas, emaranhadas, inseguras.
Parece existir um paradoxo entre o enunciado e a enunciação, entre o significante e o significado, entre querer ser e parecer representar.
São linhas que escapam, que nos escapam, linhas fugidias que se estendem e se contraem em enunciados performáticos, desenhando as medidas de ações desejantes.
Linhas tão desmesuradas e, no entanto, tão costuradas nos discursos.
O que fica e o que escapa deste campo de batalha tão doce e tão áspero, presentes nos desenhos de Júnior Suci?

Sempre vale lembrar que, também por trás da palavra desenho, existem os sinais do desejo que se lançam e se projetam no espaço do mundo, mesmo que na intimidade de um gesto.

Edith Derdyk
2009

 
 
by artebr.com