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Incertae Sedis

A exposição Incertae Sedis reúne obras dos últimos quinze anos do artista paraibano José Rufino. O título é inspirado na obra de mesmo nome que abre a mostra, uma retorcida raiz que brota de um velho arquivo de madeira. De natureza não definida pelo método classificatório do artista, esse estranho vegetal prenuncia o que virá depois.

Um pouco mais antigas, as Cartas de Areia, série iniciada nos anos oitenta, são registros de compra e de venda do velho engenho, localizado na região de Areia, relatos de viagem e cartas trocadas entre o avô, de quem o artista herdou o nome, e seus familiares e sobre as quais Rufino trabalha com finas camadas de tinta e alguns grafismos.

A instalação Plasmatio destaca-se por sua amplidão e pungência. Nela o artista combina mesas, escrivaninhas, cadeiras e malas que, em posições inusitadas, dividem um mesmo ambiente. O mobiliário antigo serve de estrutura a partir da qual Rufino organiza sua obra e o percurso do visitante. Ao centro, duas torres, constituídas de mesas cuidadosamente empilhadas, criam um suporte para a imagem a se formar. Sobre manuscritos antigos, reunidos e colados Rufino pinta e dobra e, utilizando-se de processos inspirados nas pranchas de Rorschach , obtém uma forma simétrica e antropomórfica difícil de decifrar. Ela não tem face e seus limites são imprecisos. O corpo não está presente, mas seu rastro e sombra revelam sua compleição.

Filho de militantes em movimentos sociais e organizadores das Ligas Camponesas, na Paraíba, Rufino passou alguns anos, durante sua infância, convivendo com uma atmosfera misteriosa dentro de casa. Segundo o artista, “havia algo no ar”, um perigo real, não tangível pelo menino José Augusto (nome de batismo de Rufino). Este dado biográfico marcante, comum a muitos brasileiros, conferiu à obra do artista um caráter investigativo, quase que arqueológico, acerca das recordações de infância. Desta forma, uma curiosa busca instaura-se na tentativa de identificar um corpo. A ausência se traduz então em uma reconstituição aproximada, uma imagem idealizada, mas ainda sem rosto ou sem nome.

A partir de cartas trocadas entre presos políticos e seus familiares, coletadas pelo artista, inicia-se um longo processo de, paradoxalmente, decifrar e encobrir manuscritos, guardando certa semelhança com os métodos empregados por seus autores. Esta escrita através de códigos, que à época desviava a atenção de olhares vigilantes, é o fio condutor de Plasmatio. São correspondências cifradas que provocam lembranças de imagens, de histórias guardadas que Rufino coleciona e refaz, através de percursos às vezes tortuosos, como as linhas entrelaçadas que atravessam a sala e se atam aos carimbos presos à parede.

Mais adiante, uma cadeira repousa invertida sobre uma comprida mala suspensa no ar sugerindo uma pausa no tempo, memórias interrompidas, arquivadas e não reveladas. As malas repetem-se também e em quantidade, na instalação Sudoratio, peça que encerra a exposição. Uma estranha substância branca e sólida sai de dentro delas, evocando mais uma vez a idéia de memória e de vestígios no tempo. A matéria branca, com aparência de fungo e de conteúdo irreconhecível, rompe selos e transforma-se em um novo espécime a ser classificado.

Há algo de surrealista na obra de Rufino. São inevitáveis as associações com a literatura fantástica de Kafka, Cortazar e Saramago, especialmente quando lemos os textos do artista que acompanham esta montagem. O flerte com a literatura é evidente desde o início, quando Rufino realizou sua primeira exposição com arte postal. Desde então, a escrita lhe é mais que familiar, é peça fundamental em sua trajetória. Neste sentido, ordenar, decifrar, classificar, nomear, não necessariamente nesta ordem, são processos sobre os quais o artista cria uma plataforma de novas categorias que desafiam nossa curiosidade e transformam José Rufino em um artista de muitos nomes, de quase todos os nomes.

Claudia Saldanha