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Abandono e Gravidade

A casa e o ateliê de Ivens Machado ficam na entrada do Vidigal. Entre a favela e o atlântico, ele habita o coração das contradições cariocas. De um lado, a energia viva do desastre, do outro, o horizonte sem fim do mar aberto e luminoso. Neste ambiente ele produz suas esculturas onde vemos acumularem-se fragmentos de matéria bruta de um mundo áspero, silencioso e cinza. Toda a tensão concentrada de suas peças não lhes retira uma potência lírica, uma economia poética voltada para o que se mantém junto pela solidariedade intrínseca dos materiais. Lirismo da gravidade e do peso.
Desde os anos 70, no começo, portanto, de sua trajetória, a contenção é um elemento determinante de sua poética. Não se trata de uma contenção minimalista, nem, tampouco, conceitual. Se falarmos de um diálogo de geração, levaríamos sua obra para perto da arte povera. Há uma recusa do excesso e da carne, uma procura pela ossatura bruta do mundo industrializado. O peso e os materiais das suas esculturas enfrentam a leveza e a lógica decorativa que regem o olhar pacificador do consumo.
Em um pequeno texto escrito pelo artista em 1975 ele observa que “a opressão está diretamente ligada à problemática dos opostos que se dilaceram na identificação” . Esta passagem tem interesse ao revelar, por um lado, a tensão política vivida àquela altura e que o seu trabalho enfrentava com coragem. Por outro, apontava para uma razão poética que iria conduzir sua obra: os opostos se enfrentam sem submissão a uma unidade composicional, afirmando, ao contrário, uma tensão corrosiva. Os materiais se juntam sem se misturarem, apostando no risco da convivência como se cada material fosse uma força contrária à adequação na unidade. Cada material mantém sua personalidade, afirma sua diferença no contato, na tensão e no abandono. As esculturas de Ivens, na secura bruta dos materiais, recusam toda facilitação do apelo sensorial. Tudo nestas peças é exterior e silencioso.
Outro aspecto recorrente em sua poética, que vem desde as interferências nas pautas de caderno do começo dos anos 70, é a relação entre série e acumulação. Seu gesto é repetitivo sem ser sistemático. A agregação de linhas, pedras, cacos, tocos e entulho, vai acontecendo sem uma regra determinante. Se não há regra, tampouco se revela a arbitrariedade ou o acaso. O que se acumula através do gesto do artista responde a um processo maturado na intimidade do trabalho.
As esculturas de Ivens são como organismos elementares de um mundo devastado pela desmedida urbana. São uma espécie de cactos nascidos no seio de um deserto civilizatório. O ato de juntar e de acumular fragmentos parece interessado em reunir energia dispersa, recuperar uma economia produtiva que estaria perdida no fascínio do consumo e do glamour. A presença bruta destas peças tem mais a ver com concentração de forças do que com realização formal. Não que a forma não interesse, mas ela não se descola do processo de produção e do movimento interno dos materiais. A forma é o resultado de um equilíbrio, ao mesmo tempo precário e preciso, entre a vontade formal do fazer e a resistência informal da matéria.
É interessante situar esta obra no desenvolvimento da escultura contemporânea brasileira, tão marcada pela matriz construtiva com sua necessidade de vazio, ar e respiração. É curioso comparar o gesto rápido dos cortes do Amílcar de Castro e o árduo manuseio do concreto, das pedras ou da madeira em Ivens. Um abre a forma para o espaço do mundo, o outro fecha o espaço na densidade da matéria. Esta contraposição com a idealidade da forma construtiva também deve ser desdobrada, pensando-se em termos do desenvolvimento experimental posterior ao neoconcretismo, na rejeição do espectador participante, do jogo lúdico entre a forma plástica e a interação do público. As esculturas de Ivens, na verdade, evitam a intimidade pelo contato e mostram uma aspereza nada cordial. Quem tocou no ponto decisivo neste aspecto, foi o filósofo Eduardo Jardim em texto sobre a obra de Ivens. “No esforço de abolir a diferença entre arte e experiência, arte e vida, nenhuma das partes sai ganhando. Nem a arte, já que perde sua possibilidade de dizer alguma coisa além da experiência, nem a experiência ou a vida, que não pode ser questionada pela intervenção da arte” . Não se trata de negar a experimentação, de uma aposta reativa ou nostálgica visando resgatar as normas e o distanciamento da tradição. O que interessa é o espaço aberto, sempre em transformação, entre a arte e a vida. A obra de Ivens habita este espaço, resistindo a toda acomodação formal que se afasta do mundo pela recusa do conflito. A brutalidade física destas esculturas não se conforma nem se acomoda aos valores estabelecidos. A exterioridade e o silêncio, mencionados anteriormente, dão uma dimensão não-conciliatória a estas esculturas, em que o sujeito não se integra nem se dissolve na experiência.
Vemos uma espécie de retorno à terra depois do vôo construtivo. Há um diálogo indireto com os bólides do Oiticica (sem o manuseio) e com as trouxas do Barrio, com tudo o que resiste neles ao olhar adaptado à bela forma do design e que quer devolver à arte uma certa memória do chão, do peso, da pedra. A potência das coisas concretas somada à temporalidade ancestral e ao gesto primitivo – juntar, acumular, agregar – dão à poética de Ivens uma vitalidade provinda da ação física, do fazer não domesticado das mãos. Uma mão que não quer a sofisticação do acabamento, do saber fazer, da manipulação técnica da matéria. Uma mão hesitante que se arrisca ao erro e se deleita com as impurezas, que nos põe diante da diferença fundamental entre uma forma necessária e uma forma trivial. A obra de Ivens tem um lugar fundamental e solitário no desenvolvimento da escultura contemporânea brasileira.

Luiz Camillo Osorio
Agosto de 2006