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Ilana

“Assim se alternavam sem interrupção novos, graciosos e espetaculares cenários, diante de nossos olhos admirados, até que, finalmente, a capital do novo reino, iluminada festivamente pelo sol poente, se patenteou à nossa vista (...). Indescritível sensação apoderou-se de todos nós, no momento em que a âncora deu no fundo de outro continente, e o troar dos canhões, com irrupção de música de guerra, saudou o almejado alvo, a feliz conclusão da viagem marítima.”1

“O lugar não é unicamente um fragmento de espaço ou um ponto imaginário. Constitui a si mesmo uma forma de ver, de conhecer e de entender o mundo. Em efeito, ver e pensar o mundo como um conjunto de lugares fixa uma perspectiva muito particular: passamos a discernir aspectos singulares, a perceber conexões e distâncias entre pessoas, coisas e lugares, a assimilar vivências e significados particulares. Quando pensamos em tipos de lugares _como um bosque, uma rua, uma escola, uma sala, uma cidade_, associamos ideias, ativamos nossa memória voluntária e involuntária, nos surgem imagens, conceitos e circunstâncias.”2

Ao aportar no Japão, o olhar de Ilana Lichtenstein certamente se aproximou do tom encantatório com o qual o Rio de Janeiro foi eternizado em livro por naturalistas no século 19. Mas a experiência do artista-viajante contemporâneo também se liga a lugares dos mais variados tipos, e talvez aquela vinculada à memória seja certamente marcante. Por isso, algumas das imagens inaugurais de Presenças são de autoria da artista paulistana.

Se a atividade fotográfica corriqueira de Lichtenstein em São Paulo percorre em especial o retrato, seu foco nas cidades de Tóquio e Kyoto captura suas particularidades urbano-espaciais. Contudo, o tempo é componente essencial dos elementos ternamente registrados pela artista. Uma escadaria, uma caixa-d´água, uma alameda, por exemplo, ganham um status singular, raro. Apesar do predomínio do verde, surgem outras cores nas composições _como o vermelho_, que se materializam e rompem a neutralidade da corrente “inexpressiva”3 destacada por Charlotte Cotton em seu fundamental A Fotografia como Arte Contemporânea.

Mario Gioia / 2011
(excerto de texto curatorial para a exposição ‘Presenças’, março de 2011)

1 SPIX, Johann Baptist Von & MARTIUS, Carl Friedrich Von. Viagem pelo Brasil – Livro Primeiro. Edições Melhoramentos, São Paulo, p.42
2 MAH, Sergio (org.). Lugar/Place. La Fábrica, Madri, 2008, p.7
3 COTTON, Charlotte. A Fotografia como Arte Contemporânea. Martins Fontes, São Paulo, 2010, p.81

 
 
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