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Erupção

Vulcões deixam para trás um solo pedregoso, lodoso, antigo, desconhecido até o momento de dormir. Nessa noite, ao acordar em vigília quase sonâmbula, depois de um deserto, só é possível ver uma palmeira da janela acortinada do quarto em Lanzarote. Uma natureza começa assim a ser fotografada, a partir da névoa um pouco dormente do tecido. É uma ação natural e intuitiva. Dela nasce a narrativa não-linear. Fotográfica e com título - “Uma e Outra Erupção”.

Doze imagens, assim, resplandecem um sonho doce e primitivo, obscuro – sim, quanto medo dá ser este um pesadelo com um personagem masculino, uma palmeira, um pássaro, uma carcaça da cabeça de animal mostrada pelas mãos de um casal, um pouco de sol e o mar. Atmosfera arcaica, de tonalidades de cinza e azul, guarda um homem deitado com olhos diretos ou de costas. Por paisagens/passagens, ele parece ter dormido e percorrido um território simbólico, sereno, anacrônico, ilhado das coisas banais. É preciso aceitar que não há como entender a leveza de tal estranheza íntima. E ainda, aceitar que estamos sós. A fotografia, à mão, iluminou esse sonho bruto e em quietude. Diurno. Desviou a viagem a Lanzarote para uma espécie de suspensão - entre a verdade e a vontade. De criar.

As imagens não são memória, mas silêncios. As fotografias não são, tampouco, retratos. Costas do homem se tornam, formalmente, extensão da folha da palmeira. Corpo e natureza se fundem no sonho de ir e vir numa ilha, entre o vulcão e o mar. Pessoas tergiversadas quase não têm identidade, mas aquele personagem masculino tem, com suas andanças, descansos e sua pele ao sol.

Uma e Outra Suspensão.
Uma e Outra Criação.
Uma e Outra Solidão.
nessas obras de Ilana Lichtenstein.

Camila Molina / 2011
texto criado a partir de conversas com a artista.
(redigido a partir do contato com uma edição da série ‘Uma e outra erupção')

 
 
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