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AS CASAS EM VOLTA
Sobre a exposição Relatos de Luz, Tempo e Cor de Inaê Coutinho

Levada pela mãe quando pequena, durante algum tempo a artista viveu em Cabo de Santo Agostinho, Suape, litoral de Pernambuco, numa casa de terra. A casa da nossa infância, qualquer que seja ela, deixa-nos uma experiência indelével. Lugar das primeiras experiências com o espaço: a fração cambiante do mundo entrevisto pela janela; as travessias pelas portas, as abruptas mudanças de estados relativas às incontáveis partidas e regressos. Enquanto a primeira, a saída de casa, permanentemente sob o signo do imprevisto, oferecia-nos absolutamente de tudo, a segunda ofertava-nos a quietude e o consolo do reconhecimento: o alarido na hora do almoço, o esquecer-se nas brincadeiras solitárias, a segurança facultada pela imobilidade das paredes. E o quê dizer dos corredores, do convívio com os dóceis móveis domésticos, com as correntes de vento, com os aromas da comida sendo feita, do sabonete na pele ainda úmida, do cheiro do travesseiro? E os medos noturnos, os vultos, as sombras, os espectros estáticos nas altas madrugadas, os pequeninos e alarmantes ruídos rilhando o silêncio? Os sobressaltos do sono, o rosto despertado pela água fria, olhos atordoados pela brancura da louça da pia.

Quanta coisa oferece uma casa na nossa infância, qualquer casa. Creio, contudo, que uma casa de terra oferece mais. Talvez porque ela respire, coisa que as outras, particularmente as de agora, realizadas a partir de procedimentos e materiais industrializados, não dão a ver com clareza (também elas respiram, embora com mais dificuldade).

As casas de terra são porosas, vão se desfazendo com nitidez no decorrer dos dias, meses e anos, acusando todos os pequenos golpes sofridos, a começar pelas unhazinhas que irresponsável e distraidamente as vão cavando. Absorvem com doçura o impacto das camas, armários, mesas, estantes, panelas e enfeites - quadros, fotos e calendários - com que se preenchem os espaços que elas ofertam, convertendo-os em ambientes; amoldam-se lentamente aos corpos dos moradores, tomam para si seus odores e secreções, as marcas inconscientes que deixamos em tudo, como as sutis cicatrizes que se vão desenhando em nossas peles. Em razão da porosidade típica da terra, as tintas que nelas se aplica nunca são superficiais, mas como quê avidamente sorvidas pela rede capilar de seus vasos. Não são, pois, fenômenos superficiais mas substâncias entranhadas.

Agora fotógrafa, Inaê visita essas casas como se revisitasse a casa de sua infância, a casa amada e que seria perdida não estivesse duradouramente nítida em sua memória. Ama essas casas do mesmo modo como ama as pessoas que as habitam, compreendendo que poderia estar no lugar delas, até porque já esteve. E o que ela mais busca é a luz que as invade: um milagre. A luz que se insinua pelas frestas, indiferente a notável espessura das paredes de terra, como a luz que entra pelos nossos olhos, iluminando por dentro nossas cabeças impermeáveis, como a luz de Fra Angélico, mais precisamente aquela da sua Anunciação, que atravessa diagonalmente a tela, do céu ao seio da Virgem Maria, recolhida, supostamente sob o abrigo inexpugnável de uma arquitetura.

O tempo de suas fotografias é o da observação atenta, lenta, quase excessiva, uma estratégia eficaz no que se refere à busca de um ângulo que escape do trivial, que estabeleça relações imprevistas entre as coisas, o que se evidencia no enquadramento de corte preciso e incomum. No que diz respeito à saturação da cor, Inaê persegue a alteração da cor "real" das coisas de maneira homóloga a de um pintor que busca cores através do acúmulo, procedendo como se empilhar cores significasse o mesmo que empilhar o tempo. Faz isso como a garantir o tempo necessário para que cada cor se materialize ou, dito de outro modo, como se as coisas precisassem desse tempo para emanar as cores firmemente fincadas em suas carnes. E, para tanto, lança mão de recursos analógicos, usando filmes, pois de outro modo os raios de luz que atravessam algumas de suas imagens, adensando-se em pontos de configuração poliédrica, não seriam vistos com a sutileza tonal que chega agora até nós. Esses raios, que no ponto de vista de uma legião de fotógrafos passam por erro técnico, surgem à revelia da artista dado que não são vistos à olho nu; só aparecem por causa da posição da câmera e pelo longo tempo de exposição, e se manifestam apenas no negativo revelado. Surpresa e materialização do invisível são conceitos que se limitam no caminho poético dessa artista, e ela volta à casa, à todas as casas, em busca daquilo que só está quando a luz, atravessando-as, obriga a despertar.

Agnaldo Farias


Mini biografia
Inaê Coutinho, São Paulo, 1971. É fotógrafa e professora.

Expões seu trabalho pessoal desde 1992, tendo ganho a Bourse-Cadrage Atelier Gapihan (Paris/2011). Entre suas exposições destacam-se as individuais Luz Interior (Maison du Brèsil, Paris, 2012), Casas de Inaê (Espace Gapihan, Paris, 2011), Da Luz (VU PHOTO Centre de Diffusion et Production de la Photographie; Da Luz (Espaço Porto Seguro de Fotografia/2008), Da Luz na Escuridão (Centro Universitário Maria Antônia/2005), Memória nas Coisas (Centro Cultural São Paulo e SESC Amapá/2000), Autoretrato com Amiga (Funarte RJ/1994) e as coletivas Integração|action (SESC Pinheiros/2011) e Ponto de Equilíbrio (Instituto Tomie Ohtake/2010).

Relatos de Luz, Tempo e Cor é o título de sua tese, defendida em 2012. Graduada pelo Instituto de Artes da UNICAMP em 1995, obteve o grau de doutora em Poéticas Visuais pela ECA-USP, onde também se tornou mestre pela mesma linha de pesquisa, sob orientação de Marco Buti. Concluiu seu estágio doutoral na Sorbonne Nouvelle Paris 3, sob orientação de Philippe Dubois, com suporte da CAPES-PDEE.

Tem larga experiência no ensino de artes, fotografia e vídeo para o ensino formal (Especialização, Superior, Médio e Fundamental II ) e em cursos livres, bem como na formação de professores. Presta consultoria pedagógica para o 3º Setor, tendo sido agraciada por sua atuação com o Prêmio Internacional de Inovação e Criatividade pela Safe Kids WorldWide em 2005. Colabora com o projeto Cidade Invertida. Atualmente leciona no Instituto Tomie Ohtake, no Projeto Pontos MIS do Museu da Imagem e do Som, na UNIP e em ateliê.

 
 
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