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Os Vales de Felipe Cohen

Felipe Cohen monta agora a exposição mais variada de sua carreira. Em primeiro lugar, o artista se distanciou de seus mestres e fala com maior autonomia. No entanto, sua identidade não foi conquistada a partir de uma marca estilística. Seus objetos não se parecem uns com os outros. Fora três desenhos, todos partem de motivos muito diferentes. Ao percorrer a exposição, vemos vários materiais e soluções. Ele lida com feltro, ferro, vidro, objetos banais e a superfície do papel. Também trabalha com linguagens e tamanhos diversos.

Além de diferentes, eles não se relacionam e nem dialogam com o espaço da galeria. As peças tridimensionais são postas direto na sala de exposição, sem pedestal, apoiadas no chão ou na parede. Estão preocupadas com uma ordem que se faz e desfaz no seu interior. Felipe é um artista mais atento à interioridade em suas peças do que à articulação pragmática da escultura com o espaço.
Por isso, talvez seja mais prudente voltarmos a critérios clássicos e agrupar os trabalhos de acordo com parâmetros técnicos. Temos um conjunto de desenhos e dois de escultura: o das peças maiores e outro das pequenas. As grandes não são enormes, só têm mais elementos e se espalham com maior folga pela sala. As outras têm cara de objeto. São concentradas, fechadinhas em si mesmas, relacionam dois elementos, um banal e industrial e outro da natureza, a bem dizer mármores muito bem cortados.

Os desenhos são os trabalhos que têm o maior número de características comuns. Partem de princípios estéticos mais determinados e de um procedimento que não varia muito. O artista evita ambientá-los. Não converte o espaço do papel em ilusão perspectiva e nem os usa para criar uma ação de personagens ou figuras. A ação é das linhas, que aparecem livres, soltas, sem muito esquema prévio. Em meio a um branco corrosivo, elas definem limites e contornam com delicadeza um espaço cego, criando imagens reconhecíveis. Enxergamos vales, chamas de vela e até covas. Os traços coordenam-se uns aos outros e formam uma miragem. Algo que conseguimos enxergar num branco estourado que retira a definição de tudo. O esforço é análogo ao do míope sem óculos. O sujeito aperta os olhos, e em meio a imagens difusas tenta identificar algo.

Depois disso, o artista preenche algumas formas, construídas pelas linhas, com uma massa fininha. Branca mesmo, mas não do mesmo branco que o papel. Ao invés de estabilizar a forma, o conteúdo torna o desenho ambíguo. A pele delgada adere ao contorno, criando uma zona indefinida. Atribui à forma uma profundidade que não víamos antes.

Ela aparenta maior volume do que a linha inicialmente sugeria. Além disso, essa quase cor vira mancha. Algo que não podemos pegar, como líquidos e chamas. Assim, quando a mancha parece um lago, não é um lago de águas plácidas. Está mais para a corrente que pressiona o dique. Esta pulsa contra os limites que a retêm, e pode até colocá-los em xeque. A divergência, porém, aparece suspensa. Apesar do conteúdo das linhas querer se expandir, ele não procura desestruturar os traços que o contêm, mas, pelo contrário, os unifica. Assim, aquelas linhas meio perdidas no papel raso mostram uma força antes imperceptível a nós.

Na escultura Caminho, o artista modifica este princípio. Aqui as fronteiras são mais rígidas e definidas. Cohen alinha na galeria três calhas de ferro muito parecidas. Ficam uma atrás da outra, de maneira serial, com intervalos regulares. Assim, pareceriam soltas, como na escultura minimal. Mas um manto de feltro os cobre. O tecido desliza sobre cada calha. Quando passa pela estrutura de ferro, acomoda-se aos seus limites. Ao chegar nos intervalos, no entanto, ele se espraia. Mas não de modo anárquico. Alarga suas margens e forma um quadrado regular. Temos a impressão de vermos a poça mais ordenada de nossas vidas. Ao voltar para a próxima calha, o feltro retorna ao formato
anterior, no tamanho do cano cortado. O material mole corre líquido. Segue uma toada estável, sem grandes surpresas. Ao invés de romper com a serialidade, o feltro unifica. À maneira das manchas nos desenhos.

De modo distinto, em Certo por linhas tortas o material mole também amarra elementos mais rígidos distribuídos em série. Uma mangueira fina e transparente passa por dentro de pedaços de canudos grossos ordenados em círculo. Apesar desta ordem sugerir um vínculo entre as peças, a delicadeza dos tubinhos impede que vejamos todos juntos como uma obra íntegra. São pequeninos, pouco visíveis e só estão ajeitados. A mangueira que passa por dentro deles parece desordenar a estrutura: move-se de maneira mais orgânica, sai um pouco do círculo e ousa outros tipos de forma. Ela não segue a ordem que o círculo determina, se mistura com espaços vazios da galeria, incorpora coisas de fora e procura um desenho próprio. Mas, na verdade, é essa linha suave que dá unidade para as peças menores, atribuindo integridade à forma geométrica.

O procedimento é análogo à interpretação do saxofonista Anthony Braxton dos clássicos do Jazz*. A ordem das notas é parecida com a que está escrita nas partituras. Porém, o artista incorpora o acaso. Faz com que percebamos silêncios, ruídos e outros elementos não harmônicos que correm paralelo ao que está nas pautas. Felipe faz isso também. Além de mostrar o banal que corre paralelo à arte, nos faz perceber manifestações poéticas neste mundo repleto de eventos simultâneos. Por exemplo, inscreve no meio da mostra objetos rotineiros, como um copo de requeijão e uma sacola plástica, que poderiam desviar nossa atenção das obras. Assim como Braxton. Cohen não preenche a arte com outros elementos apenas para percebermos o que corre ao largo dela, mas também para que possamos perceber o melodioso em meio ao ruído. Não é por acaso que dentro do copo largado na exposição vemos uma forma de mármore rente ao vidro. No meio da confusão, encontramos um volume com a calma de um riacho que corre ao longe.

Tiago Mesquita

*Anthony Braxton, _Whats New in the Tradition_ (1974).