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Início Quarta-feira, 06 de Agosto de 2008 21:50h
Término Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010 11:11h
Local São Paulo, SP

Todo ato investigativo tem início com as relações de fatos coexistentes para o levantamento de algum sentido comum e, num segundo momento, a separação desses acontecimentos em discursos independentes. Aqui, a ideia inicial não é especular uma razão que justificaria a repetição sistemática do fato: a fotografia sequencial de pessoas entre dezoito e os quarenta anos que circulam no meio artístico, universitário, da moda, religioso e da psicanálise.

Como autora do crime, a primeira hipótese a me questionar é a conexão entre essas fotos antecipadas da morte com outras séries de fotografias que produzi simultaneamente. Em cada uma delas, composta como se fosse tirada para um RG, o retrato centralizado no primeiro plano contrasta com a cor uniforme do fundo. Em Figuração, as pessoas são anuladas de qualquer possibilidade de identificação pessoal se a via for confirmar as características faciais. Elas usam acessórios de proteção. Culturalmente, os capuzes se referem à mais notável adoção do vestuário masculino nos bairros de periferia. O insight para a realização da série deu-se em um show de rap. A propósito, cada retrato é um esmiuçar daquela ideia de coletivo do público. O outro lado de Figuração (Delivery) é o retrato por unidade da corrente sanguínea de maior pressa no trânsito de São Paulo: motoboys e motoqueiros posaram para sessões com seus respectivos capacetes.

Em Boa noite, Cinderela, a cena noturna ou o clima de conquista amorosa abalam o título e favorecem as interpretações sobre roubo, abuso e violência. Mas estas fotos, também, são premeditadas como um crime. Durante dois anos, cerca de oitenta “vítimas” foram “desapropriadas” de vaidade, talento para a retórica, cinismo e o gosto pela vida. Cônscias, elas reservaram em média trinta minutos para a aplicação do golpe ou, em outras palavras, para o disparo da câmera. Nestas fotografias, diferentemente do estilo retratismo ou das pinturas palacianas, quem observa não se sente atraído pela troca recíproca de olhares porque isso não existe. Como nos retratos em Figuração, o olhar diante dos “mortos-vivos” volta-se para si mesmo.

A repetição é critério de produção que favorece o exercício comparativo entre as amostragens facilitando a elucidação do caso. E da observação do resultado, neste processo investigativo, indago o retrato como subterfúgio para falar de uma espécie de identidade ausente.

Flávia Bertinato

 
 
by artebr.com