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A sedução que nos resta

Para o bem e para o mal, inúmeras propagandas se fixam em nossa memória, ocupando um espaço que, pensamos, poderia ter um destino mais nobre. O apelo da imagem que retrata um beijo entre um padre e uma freira da famosa foto publicitária da marca Benneton da década de 1980 é inescapável. Mas este é apenas um exemplo, há outros. "Keep walking", slogan não traduzido da Johnnie Walker, pode ser outro. Ele é capaz, como uma dose de whisky, diriam os fabricantes, de reconfortar e restabelecer certa auto-confiança, ao menos nos momentos em que ela se encontra mais abalada. Há músicas que têm o mesmo poder, refiro-me a músicas que tocam nas rádios FM a exaustão, cujos cantores são convidados para animar o natal na Avenida Paulista, comícios políticos de diferentes partidos e os tradicionais programas de TV dominicais. Isso sem mencionar os filmes de Hollywood. Impossível não ter ao menos uma dezena deles que te fazem rir, ou chorar.

A exposição Solstício, de Flávia Bertinato, evoca esse tipo de coisa. Porque, tal como esses produtos, as vezes duvidosamente classificados como “culturais”, ela joga sujo, apela. Na obra Calada uma rosa gigantesca parece flutuar, separada de nós por uma vitrine. Apesar de nos remeter imediatamente às bexigas vendidas em parques e portas de churrascarias, a rosa que vemos está imune à melancolia delas, que cedo começam a murchar e perder seu brilho. Tão logo chegam em casa, as bexigas de gás hélio começam a dar sinais de debilidade, estouram, encolhem, até acabarem como um ínfimo pedaço de plástico destroçado. O mesmo não se passa com a o imenso objeto de Calada. Rígido e inabalável. Uma rosa que está eternamente no auge. O presente favorito dos amantes: rosas cor-de-rosa. Mas, afinal, a inferida beleza romântica das rosas não está em seu frescor? Em ser ela “um sopro de vida”? Não se dá um belo buquê de flores artificiais como presente de dia dos namorados. A rosa de Calada é bizarra, como toda flor artificial, mas não quer se passar por uma verdadeira, guarda delas apenas contornos vagos, traços estilizados que já pressupõem mediações entre a rosa natural e sua representação, digamos, industrial. Por isso não estão num jardim, nem num vaso em cima da mesa, mas na vitrine, oferecendo-se como mercadoria.

A outra instalação presente na exposição, Amante, tem cortinas com as mesmas cores fortes de Calada. Aliás, cores habitualmente vinculadas à idéia mais clichê de romance: rosa, vermelho... Elas lembram um teatro, antes do espetáculo começar. Mas do show, temos acesso apenas a som que se repete continuamente. Trata-se de um ambiente impenetrável, se quisermos apontar uma diferença com os emblemáticos trabalhos de Hélio Oiticica e Jesus Soto que apostavam, cada um a sua maneira, na participação do espectador. De par com a sedução do volume das diversas camadas de tecido, de sua textura e cor, temos a interdição da experiência. A artista cria um ambiente que convoca os sentidos, mas represa a satisfação. Uma sobreposição de camadas que se seguem adensando o espaço em que se instalam. A disposição do tecido, cujas superfícies estão sempre em contato, convoca o corpo, um leve toque dos tecidos, um roçar a superfície, sentir a textura. Mas, sem deixar brechas para o que espectador realmente sita aquele espaço, impede o desfrute do corpo. Uma instalação para ser vista do lado de fora, tal como Calada que vemos sempre através de uma vitrine. Mas, se aqui não está em jogo a sedução, sempre um pouco perversa, da mercadoria, há outra equivalente. A promessa de diversão anunciada pelo clima de espetáculo a começar nunca se cumpre. Tudo se passa como se no próximo instante as cortinas fossem se abrir revelando o interior da peça. Momento que nunca chega e é sempre adiado.

Os três vídeos que compõem Solstício são, de certa maneira, um contraponto a esse excesso de brilho e cores das duas grandes instalações. Embora operem no mesmo sentido delas, não estão ligadas a uma sedução da indústria, ou sequer da indústria cultural. São vídeos escuros, noturnos, melancólicos. Em um deles vemos uma mulher caminhando a noite pelas ruas de São Paulo. Sozinha, não parece querer chegar em algum lugar. Assim como não sai de um lugar específico, simplesmente começa a caminhar. Mas o que move a sua ação? Os lugares já estão fechados, a cidade aparece hostil: as sirenes dos carros de polícia estão ligadas, seguranças particulares plantam-se nas calçadas, carros correm nas ruas esvaziadas. A experiência que a cidade oferece não parece valer o dispêndio de energia que a caminhada exige. O motivo, se é que há algum, permanece secreto.

A cidade desaparece nos outros dois vídeos, que são filmados em ambientes internos. A ação repetitiva num deles é a de caminhar alguns passos e beber goles de um copo de vinho e voltar para um fundo escuro. Não é fácil perceber os efeitos da bebida na mulher que está diante de nós, num espaço reduzido, durante aqueles poucos passos que a câmera alcança. Mas o movimento do corpo, do qual vemos apenas uma parte - aquela que aparece para fora do decote da roupa preta que se confunde com o fundo - esse vai e vem interrupto, ganha um ritmo de uma espécie de transe. Podemos imaginar os pensamentos dessa mulher se embaralhando, se esvaindo e um esforço de concentração cada vez maior no simples ato de caminhar alguns passos e beber. Não há propriamente prazer, mas há algo como uma satisfação em poder se dedicar a uma tarefa qualquer, e tanto melhor se ela não faz pensar, mas ao contrário, entorpece.

A exaustão física aparece de outra forma no vídeo em que um homem toca bateria. O vigor do início da ação não desaparece por completo, mas cede lugar a um cansaço cada vez mais evidente. Mas um cansaço que também é intensidade, que vem junto com uma concentração mais detida, uma entrega à música, aos movimentos, à performance. A persistência também aqui gera um abandono do mundo externo a conseqüente fixação em um objeto.

Todas as ações revelam um certo abandono do eu, uma espécie de busca pela alienação como única possibilidade de conforto. Não sem algum incômodo, são vídeos sedutores: o risco e a beleza melancólica da cidade vazia, o afinco da mulher que se embriaga, a sensualidade do músico que toca. Todas essas ações um tanto vazias, repetitivas (e ainda colocadas em looping) e sem motivação clara exercem uma atração: nos deixamos envolver assim como aqueles personagens estão absortos.

Há outros trabalhos na mostra: fotos que juntam o modo publicitário de construir imagens num estúdio: iluminação dirigida, combinação de cores e tons, mas que não mostram nada, pois as pessoas fotografadas estão sempre de costas. Primeira e última sessão traz a memória os cinemas antigos e nele dois espaços são criados para abrigar cartazes renovados periodicamente. Eles são as únicas partes iluminadas, o resto da sala permanece na penumbra. A concentração nas imagens que o trabalho nos impõe nos leva a pensar no poder das imagens publicitárias no ambiente da cidade. Afinal os cartazes fixados nos postes, as faixas penduradas entre as ruas desaparecem pelo excesso de propaganda a que estamos submetidos? Ou essa experiência do excesso é a parte mais significativa do modo de olhar na vida contemporânea?

Percebe-se um ponto de partida, por assim dizer, do trabalho de Flávia Bertinato: a utilização daquilo a que estamos imersos cotidianamente: mercadorias, imagens desgastadas, luxo barato, decoração de mau gosto. O desejo é despertado pela mercadoria clichê, pelo espetáculo (a evocação do teatro, do cinema) e através das técnicas da publicidade. Gostamos daquelas coisas, apesar de sabermos que não fazem parte da alta cultura. Gostamos de encontrá-las, ainda que a certa distância. Essa distância, contudo, não é apenas obstáculo ou interdição mas uma forma possível de relacionamento. Andy Warhol certa vez disse que sexo é mais interessante na tela e entre as páginas das revistas do que entre os lençóis. Temos prazer com a experiência esvaziada dos vídeos de Solstício, na solidão daquelas ações, e na entrega do corpo alheio, na capacidade que têm em deixar-se levar. De novo Warhol: “Quanto eu comprei minha primeira televisão, parei de me preocupar tanto em ter relações próximas”. Talvez essa frase do artista não deva ser interpretada como ironia, talvez até, ela seja mesmo libertária. A fascinação da futilidade, do mal gosto, do decorativo, afinal, pode contar pontos a favor da arte.

Thais Rivitti
2008


 
 
by artebr.com