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O Ponto

O gesto gravado é antevisão, cálculo de equilíbrio. O processo supõem um desdobrar-se no tempo, impõem antecipações. Kairós e cronos, o saber-agir do instante e a duração densa. Reiterações, persistências, resultados (que a mera habilidade e o treino da mão podem por tudo a perder).

Resultados: O equilíbrio é no instante, concerto de forças postas em ato pela tensão plástica. O gesto incisivo aponta para o momento perceptivo – passível de ser assinalado, dificilmente retido. E o olhar se faz análogo – também ele deslocável, interditado a todo e qualquer conforto.

Por subtração, o gesto de Estela Sokol instaura o branco. Opaco, tornado pura espacialidade – e que raramente emerge do plano dramatizado em luz. (Não é dessa ordem a afinidade da artista com o pathos de um Goeldi. Do vago desaprumo dos personagens solitários, dos casarões enviesados obedientes a uma outra gravidade é do que ela se apropria, se solidariza).

Aqui, branco-espaço e massa em negro ativam um outro drama, despersonalizado e sólido (a “trágica noite” se desespiritualiza). Fora de toda a metafísica, essas xilogravuras manifestam é plena correspondência entre corpo que grava e corpo da obra. Transmissão de fisicalidades: uma bem sucedida operação que subtrai Estela do mero artesanato, esse ativismo a que todo gravador contemporâneo cumpre atualizar.

Então...

(e a necessidade do gesto amplificar-se em coisa-volume, impelida a se instalar no espaço habitável do mundo)?

Fica o desconforto, a gravidade, um ponto sem apoio.

Raul Motta
2007