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Crepúsculo

Estela Sokol mostra esculturas onde articula superfícies planas e monocromáticas. O material é chato e frontal, como um corpo plano deve ser. Ela sempre gostou desses corpos achatados, sempre foi assim. Antes, fazia gravuras e relevos com eles. Usava, e ainda usa, superfícies solitárias, bem contornadas, que se apóiam umas nas outras, formando caixas, pinturas de acrílico e baixo-relevos. Ultimamente, essas formas cresceram e passaram a se relacionar com outros retângulos maiores ou com o espaço que circunda as peças.
Nas suas obras mais recentes, que na minha opinião são as melhores, a artista apóia três chapas de granito grandes e negras na parede. Elas surgem como monólitos em série, frontais negros e intransponíveis. Seriam quase minimalistas, do modo que McCracken é minimalista, se não tivessem a cor que têm no verso. Pois, por trás desses pedaços de pedra preta enxergamos um brilho avermelhado, róseo e suave; guardado como um restolho de pintura, que ficou escondida atrás de uma superfície opaca.
O aspecto monolítico e acromático da frente da pedra parece tentar esconder aquela luz que vem de dentro dela. No primeiro olhar, temos a impressão de que a artista colocou algumas pinturas ao avesso. Com a parte pintada virada para a parede. De costas para a sala de exposição e para o público. Distante dos olhos, a cor parece esmaecer devagarzinho.
Esse esmaecer, no entanto, é lento, e se torna uma espécie de luz da própria pedra. Ela tem a cor do fim de tarde, cor de um brilho que já foi forte, mas que está prestes a se apagar. Uma cor que se põe, até escurecer de vez e virar noite. Na próxima pedra, o brilho vem lentamente, como se amanhecesse, numa luz tímida, que não consegue se sobrepor à noite, mas faz com que ela ganhe contornos mais sutis, permite com que nós notemos o que a escuridão roubou dos nossos olhos.
Como se trata da ordem dos dias, o próximo passo seria escurecer de novo, apagar a luz na próxima pedra. Mas a cor por trás das peças não se apaga. A artista parece simular um crepúsculo. Um horário de sol fraco, mas ainda iluminado. Aquele resto de luz da hora de voltarmos para casa. Não temos nem dia e nem noite. Nem hora de dormir, nem de acordar, só essa hora difusa, que o sol já está com o pé pra fora e a lua ainda não chegou. Como na Escandinávia em alguns períodos do ano, nesses trabalhos o sol segue até a meia-noite. Não precisamos ir pra casa, nem voltar pro trabalho, podemos olhar pra cidade até amanhecer e anoitecer de novo, amanhecer e anoitecer de novo, amanhecer e anoitecer de novo...

Tiago Mesquita