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FUNARTE RJ

No final de 2005, Estela Sokol colocou na parede da galeria arcos de acrílico retesado, presos por cordões ou fitas de materiais também sintéticos. O salto em relação à exposição individual, realizada no mesmo ano e na mesma galeria, foi depurativo. Sokol abandonou a busca de Unidade em uma peça autônoma, que fosse auto-suficiente a ponto de girar em torno de si mesma, para lançá-la no espaço como uma mônada, uma molécula que, por mais que obedecesse a uma lógica interna de pressão e retenção, necessitasse do espaço exterior para constituir-se. Como todo salto, entretanto, Sokol correu o risco de cair no abismo. Ao pensar que aqueles arcos constituíam um tema, e que manter sua estrutura modificando o seu aspecto somente pelos materiais empregados poderia dar pano para manga, Sokol, como tantos artistas jovens, não teria entendido as conseqüências de sua própria descoberta. A saber: que as relações da escultura com a arquitetura podem ser o núcleo, e não o detalhe incômodo, da pesquisa artística. Evidentemente, essa abordagem só é possível graças a uma forma mais materialista de pensar a arte como uma relação, e não como uma entidade em si mesma. Não é, entretanto, um salto do modernismo na direção da contemporaneidade, como defenderiam os apologistas da instituição. É somente uma forma mais pragmática de pensar o próprio ofício que culmina com uma depuração qualitativa. Afinal, toda escultura de qualidade, desde a antigüidade, passando pelo gótico e renascença até os dias de hoje, é uma problematização do atrito obrigatório entre a forma individual e o espaço que a contém.
Para afastar-se devidamente do engano da variação sobre um tema, Sokol esmagou seus arcos contra as colunas e paredes da Funarte, tratando-os como uma parte de uma relação, e não (como já foi frisado) como uma forma autônoma, criando um lugar específico, que se apresenta a nós como obra. Essa especificidade, e uma ativação de universais adormecidos, é necessária não só à escultura pós-minimalismo, mas a toda escultura de qualidade, de Donatello a Richard Serra.

Rafael Campos Rocha
Maio de 2006