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Um salto no vazio

Amanheceu no trabalho de Edith Derdyk. Não é de estranhar que uma trajetória feita de saltos –basta pensar na transição da linha do plano para o espaço- desemboque, na presente exposição, em uma guinada do emaranhado e adensado negro à luminosidade e leveza do branco. Se o preto sobre branco era uma aposta na potência da obra de arte, na potência da inscrição da arte no mundo, o branco sobre branco funciona como uma espécie de impasse diante do campo da representação.

Podia-se dizer, até a individual anterior da artista, que a estrutura dorsal de sua produção é o desenho e que a costura (ou a sutura) foi elevada por Edith Derdyk à condição de método. “Manhã” vem desestabilizar este padrão. Na instalação “Vento Branco”, a artista faz soprar uma brisa em um calhamaço de folhas brancas, que se elevam levadas por fios também brancos, presos a uma parede igualmente branca.

A exposição no Paço das Artes, como artista convidada na Temporada de Projetos, reúne ainda um vídeo e um backlight, ambos desestabilizadores da idéia convencional de vídeo e de backlight. Onde se lê, até agora, “desestabilizar” neste texto, cabe a palavra desterritorializar, conforme tratada por Deleuze e Guattari.
 
“Ler não é decifrar, ler é puxar um fio” (Ana Cristina César) e em Deleuze há vários fios que ajudam na leitura da obra de Edith Derdyk. Esta frase da escritora carioca mostra como, ao ler uma obra de arte, não importa o que um trabalho ou um dado momento da obra significa, mas antes o que ele aciona. Deleuze mostrava como, em oposição às palavras de ordem, ou ao campo da comunicação direta, em que as conexões equivalem a zero, a arte é o campo da alta conectividade.

A produção de Edith Derdyk aciona inúmeras conexões, uma delas relacionada à idéia de desterritorialização: pensando ainda com Deleuze, os trabalhos da artista engendram territórios (entendidos como espaços de codificação) que, atravessados por linhas de fuga, ou conexões, se desterritorializam e voltam a engendrar territórios novos na mesma velocidade.

A dissolução de um território anterior está tanto, em um nível mais básico, na destruição material do trabalho como no salto de uma preocupação para outra. Primeiro a linha foi se avolumando, suturando a matéria, depois houve o salto para o vazio, para o mínimo denominador comum do desenho; em seguida, quando este processo se autonomizou em uma escultura móvel, um novo salto: para as conexões no mundo (livros, fios de eletricidade), e, finalmente, do nosso ponto de observação atual, o salto para o movimento de “Manhã”.

Do preto ao branco não há apenas uma interrupção abrupta. Existe uma memória do fluxo ininterrupto de uma a outra ponta do espectro de cores. O vídeo “Folha Folha”, que funcionaria como uma série de stills fotográficos, mas opta por não se materializar em obra, trata da impossibilidade de representar utilizando o discurso do “papel em branco” para isso. No backlight “Manhã”, a impressão translúcida é substituída por resmas de papel opaco, que deixam transparecer fios de luz. São desterritorializações destes suportes tradicionais (o papel, o vídeo e a fotografia) que engendram novos possíveis.

Juliana Monachesi

 
 
by artebr.com